15 de abr. de 2020

Pratique a Bíblia!

José Bernardo

Vários teólogos brasileiros reforçaram recentemente seu pensamento sobre as Escrituras como revelação proposicional. Eles dizem que a Bíblia informa quem Deus é; portanto, a teologia teria a função de enumerar e divulgar as propostas de Deus sobre si mesmo. É uma reação a uma teologia intuitiva mais recente, que procura conhecer Deus a partir do relacionamento. A revelação não consistiria em informações sobre Deus, mas em sua manifestação para o relacionamento com as pessoas. Essa dialética entre o Deus que se revela e o homem que percebe sua revelação tem um resultado bastante particular, que oferece farto material para coaches e terapeutas do mercado religioso. O problema é que o resultado da teologia proposicional e uma dogmática estéril; as pessoas sabem tudo sobre Deus e ponto final. Já a teologia pessoal ou relacional gera duvidosas interpretações particulares, sem fundamento que não a experiência pessoal, egocêntrica, de pessoas contaminadas pelo pecado.

Essas teologias são resultado de seu tempo. A teologia proposicional depende do modernismo ocidental e seu esforço para retomar o pensamento clássico. Ela é racional, dedutiva e sistêmica pela expectativa da verdade coerente. Se uma doutrina pode ser harmonizada racionalmente às outras, torna-se um dogma. Já a pós-modernidade, perdendo a razão e abraçando as sensações, defende uma verdade correspondente, em que cada nova ideia é aferida pelas experiências pessoais anteriores; a verdade é aquilo que cada pessoa sente ser verdadeiro. Tal mobilidade, do objetivismo para o subjetivismo, parece ser causada pelo estresse do modelo racional em uma sociedade de crescentes diversidades. Conviver com pessoas de variados sistemas coerentes de crenças, sob a mediação dos políticos e a pressão para a tolerância, inviabiliza a teologia proposicional. As novas gerações não se dispõem a contender por dogmas, então o valor proposicional é diminuído. Nesse cenário, a teologia relacional surge como substituto irresistível.

Sim, a Palavra de Deus possibilita tanto o conhecimento de Deus como o relacionamento com ele. Além disso, o Paulo comunicou: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção e para a instrução na justiça, para que o homem de Deus seja apto e plenamente preparado para toda boa obra” 2Tm 3:15,17. Mais do que comunicar Deus ou sobre Deus, a Bíblia comunica a vontade dele, gr. theléma, seu propósito. Isso fundamenta uma teologia proposital, prática, funcional, em que as Escrituras são estudadas para saber o que Deus quer que façamos, onde quer que cheguemos. Para que se cumpram as Escrituras, expressão preferida por Jesus, será o nosso modo de viver a fé, sem a esterilidade do dogmatismo proposional ou os delírios do subjetivismo relacional. Então, repetirei o que ensino há 30 anos: A Bíblia é suficiente. Pratique a Bíblia!
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José Bernardo, é fundador e presidente da Agência Missionária de Mobilização Evangelística – AMME, do Instituto Sonho Infantil e vice-presidente do ministério internacional OneHope.

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