31 de ago. de 2019

A evangelização comum

José Bernardo

Nesses dias, a evangelização enfrenta uma contaminação agressiva, quando o conteúdo bíblico é transformado em moralismo e proposto a partir de supostos benefícios éticos. Há muitos cristãos que pensam em princípios bíblicos como um padrão educacional, que poderia pautar a vida de crianças, adolescentes e jovens sem que fosse necessário um compromisso confessional, sem a convicção do pecado, da justiça e do juízo. Eles pretendem tornar as pessoas boas dispensando a transformação pela redenção e regeneração da obra salvadora do Pai no Filho e pelo Espírito. Para tais fariseus é suficiente adquirir bons comportamentos de não violência, convivência ideal, honestidade e bem-estar psicossocial. Esta é a base de muitos programas e de grandes investimentos missionários em reconciliação, paz, saúde, nutrição, moradia, reabilitação etc. Quando trato de temas bíblicos valiosos como liderança, cura emocional, convivência, sou frequentemente questionado sobre como tais conhecimentos podem ser transferidos para benefício dos não cristãos, isto supondo que nossa missão como crentes é fazer o bem. Muitas vezes, as mesmas pessoas que desejam tal transferência, recusam a mensagem do Evangelho, de submissão ao Reino de Deus em Cristo, como sendo religiosa e proselitista.



Parece-me óbvio que o neopaganismo típico da pós-modernidade, a religião do bem-estar determinada pela influência do humanismo, é a crença que define essa expectativa desconstrutiva da evangelização. Por outro lado, a soteriologia que decapita Deus, negando ao seu Corpo função na salvação, deixaria aos evangelistas a fugaz missão de ‘fazer o bem’ promovendo o bem-estar humano. Porém, examinando mais a fundo, percebemos que tal crença antibíblica é produto da ilusão de uma controversa doutrina sistemática do modernismo, ressuscitada em recente anacronismo sectário pela popularização digital: a graça comum. Esta doutrina sistemática complementar, afundada na hipótese de que a humanidade sob condenação desfruta de graça divina para encontrar o belo e o bem, depende do juízo de valor e do senso comum de que certas coisas são bênção e não condenação. Sobre isso, pergunto: O porco cevado deve chamar de ‘graça comum’ a abundância de comida que recebe de seu dono antes do abate? O homem iludido em um conhecimento limitador da verdade deveria dizer-se ainda beneficiado pela ‘graça comum’ ou já atingido pela condenação eterna? Como sempre, a teologia sistemática não dará resposta em cada Escritura útil, mas no produto de caprichosas sínteses evasivas.

No entanto, o que a Palavra de Deus diz, por exemplo, é: “Pois, embora vivamos como homens, não lutamos segundo os padrões humanos. As armas com as quais lutamos não são humanas; ao contrário, são poderosas em Deus para destruir fortalezas. Destruímos argumentos e toda pretensão que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levamos cativo todo pensamento, para torná-lo obediente a Cristo” 2Co 10:3-5. O fermento que levou tantos crentes a acharem seu trabalho secular e participação sociocultural equivalente ao ministério cristão deve ser varrido de nossas casas. Nós não lutamos segundo os padrões humanos. A boa nova do Evangelho é que Deus em Cristo quer reinar sobre os perdidos. Esse é o Evangelho do Reino e suas bênçãos somente são desfrutadas por aqueles que se submetem ao governo de Deus. Quem come e bebe da mesa do Senhor sem discernimento, come e bebe para a própria condenação. Desse modo, aquilo que alguns veem como bênção é, de fato, juízo e destruição. Então, não importa a Teologia que alguém idolatre, os discípulos de Jesus proclamarão, antes de tudo, que as pessoas busquem primeiro o governo de Deus e a justiça que nele se encontra. Outra evangelização não conduz à salvação. De outro modo, o que Jesus ensinou sobre o tema foi que “A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado” Mt 13:12.

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