26 de set de 2018

Pois agora compreendiam

Exposição bíblica: Neemias 8:1-12
Proferi essa mensagem em 25/09/18 na 72ª Escola Bíblica de Obreiros na Assembleia de Deus Ministério do Belém, em São Paulo - SP.

A pregação para o avivamento verdadeiro.
[Amad/ permanecer]
Como em Israel, a fé de nosso povo tem se tornado uma religiosidade cada vez mais formal, consistindo em datas, horários, programas, festas, atividades sociais e assistenciais. Os mais espirituais entre nós fazem solenes orações em público, mas não conversam com o Pai em secreto. Estamos perdendo a dimensão relacional da fé, aquela que Jesus descreveu como “Permaneçam em mim, e eu permanecerei em vocês. Nenhum ramo pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira. Vocês também não podem dar fruto, se não permanecerem em mim” João 15:4. Essa não é a fé verdadeira, não resulta em arrependimento e transformação de vida, não há novidade, por isso as novas gerações se perdem. O texto que vamos examinar nos mostra como Israel, havia séculos que estava mergulhado no formalismo incapaz do judaísmo das sinagogas em Babilônia, foi restaurado para mais um período de verdadeiro relacionamento com Deus, cheio da alegria do Senhor que o fortaleceria e prepararia para a vinda do Messias. Nesse texto, veremos a glória da Segunda Casa, muito maior do que a da Primeira.


[Qora/ proclamar] 
1Quando chegou o sétimo mês e os israelitas tinham se instalado em suas cidades, todo o povo juntou-se como se fosse um só homem na praça, em frente da porta das Águas. Pediram ao escriba Esdras que trouxesse o Livro da Lei de Moisés, que o Senhor dera a Israel.
2Assim, no primeiro dia do sétimo mês, o sacerdote Esdras trouxe a Lei diante da assembléia, que era constituída de homens e mulheres e de todos os que podiam entender. 3Ele a leu em alta voz desde o raiar da manhã até o meio-dia, de frente para a praça, em frente da porta das Águas, na presença dos homens, mulheres e de outros que podiam entender. E todo o povo ouvia com atenção a leitura do Livro da Lei.
4O escriba Esdras estava numa plataforma elevada, de madeira, construída para a ocasião. Ao seu lado, à direita, estavam Matitias, Sema, Anaías, Urias, Hilquias e Maaséias; e à esquerda estavam Pedaías, Misael, Malquias, Hasum, Hasbadana, Zacarias e Mesulão.
5Esdras abriu o Livro diante de todo o povo, e este podia vê-lo, pois ele estava num lugar mais alto. E, quando abriu o Livro, o povo todo se levantou. 6Esdras louvou o Senhor, o grande Deus, e todo o povo ergueu as mãos e respondeu: ‘Amém! Amém!’ Então eles adoraram o Senhor, prostrados, rosto em terra.
7Os levitas Jesua, Bani, Serebias, Jamim, Acube, Sabetai, Hodias, Maaséias, Quelita, Azarias, Jozabade, Hanã e Pelaías, instruíram o povo na Lei, e todos permaneciam ali. 8Leram o Livro da Lei de Deus, interpretando-o e explicando-o, a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido.
9Então Neemias, o governador, Esdras, o sacerdote e escriba, e os levitas que estavam instruindo o povo disseram a todos: ‘Este dia é consagrado ao Senhor, o nosso Deus. Nada de tristeza e de choro!’ Pois todo o povo estava chorando enquanto ouvia as palavras da Lei.
10E Neemias acrescentou: ‘Podem sair, e comam e bebam do melhor que tiverem, e repartam com os que nada têm preparado. Este dia é consagrado ao nosso Senhor. Não se entristeçam, porque a alegria do Senhor os fortalecerá’.
11Os levitas tranqüilizaram todo o povo, dizendo: ‘Acalmem-se, porque este é um dia santo. Não fiquem tristes!’
12Então todo o povo saiu para comer, beber, repartir com os que nada tinham preparado e para celebrar com grande alegria, pois agora compreendiam as palavras que lhes foram explicadas” Ne 8:1-12 NVI.


[Parash/ espalhar] 
Havia poucos dias que a muralha havia sido terminada. Engana-se quem pensa que aquele era um fim em si mesmo. Neemias não era um construtor simplesmente; seu objetivo era restaurar a adoração. O Segundo Templo terminado não trouxera a adoração de volta a Jerusalém. Era preciso criar um ambiente de segurança e de estabilidade e isso foi feito, com a construção da muralha, o restabelecimento da ordem e do governo, a população da cidade. Então, lemos que o povo veio a Jerusalém, como um só homem. Havia estabilidade, unidade, e eles habitavam ali.

Enquanto reconstruía a muralha e a cidade, Neemias também criou no povo um desejo pela Palavra de Deus. Seu próprio exemplo, as pessoas com que se associou, seu uso da Palavra de Deus, sua construção (inclusive da plataforma de madeira para a proclamação) tudo isso levou o povo a pedir a Lei do Senhor. Finalmente, um povo que havia alguns séculos caíra na religiosidade formal das sinagogas, agora seria novamente transformado pela Palavra de Deus. Como isso seria feito?

O processo, seguindo o relato meticuloso de Neemias, é descrito com cinco palavras hebraicas no final do versículo 7 e no versículo 8, que quero compartilhar com você.

  • Qual é o pressuposto da ministração da Palavra? “...e todos permaneciam ali”. O termo traduzido como permanecer é o hb. amad עָמַד = residir, morar, permanecer (ARC “estava em seu posto”). A ideia é de ordem e de perseverança nesse culto de pelo menos seis horas. Esse ‘permanecer’ se revelou primeiro na segurança e conforto do ambiente, e depois na segurança emocional da unidade, do consenso: a) o povo se juntou como uma só pessoa, em unidade emocional, embora a diversidade (v1); b) pediram a Lei do Senhor (v1), portanto a unidade de propósito; c) unidade de capacidade, “todos os que podiam entender” (v2); d) Unidade de objetivo, “todo o povo ouvia com atenção” (v3); e) unidade de ação, “todo o povo ergueu as mãos” (v6); f) unidade de fé, “eles adoraram o Senhor” (v6).   O povo estava ‘morando’ ali, porque Neemias criou um ambiente propício para isso, e a permanência do povo em unidade foi o ambiente necessário para uma pregação que produziu a restauração da fé, a transformação do caráter e da ação e a glória do Segundo Templo. Amad leva em conta a condição do povo e sua situação.
  • Qual é a atividade básica e objetivo final do trabalho de Neemias? “Leram o Livro da Lei de Deus”. Hb. Qora קָרָא = chamar, proclamar, ler (ARC “Leram”). O texto lido foi apresentado com grande solenidade, e a reverência que o cercou foi, certamente, fundamental para os resultados obtidos. No verso 2 o texto é referido como “o Livro da Lei de Moisés, que o Senhor dera a Israel”, ele foi lido de sobre uma plataforma elevada (v 4), por um homem dedicado a ‘estudar, praticar e ensinar’ (Ed 7:10), e todo o povo se levantou (v.5)! Certamente havia uma reverência indisputável para com a Palavra de Deus. O povo tinha a consciência de que não estava ouvindo as palavras de Esdras ou de Neemias, mas o próprio Deus falando. Essa consciência, alcançada por uma série de fatores, muitos estabelecidos intencionalmente, determinou a disposição apropriada do povo para receber a Palavra e ser transformado por ela.
  • Qual foi a primeira ação depois da leitura do texto? “interpretando-o”. Hb. Parash פָּרַשׁ = espalhar, separar, distinguir (ARC “declarando”). Cada palavra que não era entendida foi explicada, cada frase foi colocada no contexto, cada seção foi clarificada, até que todos os que podiam entender, definitivamente entenderam. O texto foi traduzido das palavras clássicas e antigas de séculos antes para o hebraico falado naqueles dias. O texto foi espalhado diante daquele povo, pelos levitas que andavam entre os grupos que permaneciam ali. Sugere-se que eles foram capazes de identificar dúvidas e dificuldades de compreensão, respondendo até que todo o texto fosse perfeitamente compreendido.
  • Qual foi a segunda ação depois da leitura do texto? “e explicando-o”. Hb. Sekel שָׂכַל = considerar, instruir (ARC “explicando o sentido”). Esse texto tanto indica o processo como se adquire o entendimento de algo, isso é, através da reflexão cuidadosa, da meditação, como também a transmissão desse entendimento na forma de uma instrução. Dessa forma, usando as duas palavras, a descrição de Neemias divide a compreensão e a interpretação do texto. Primeiro o texto foi espalhado, para produzir completa compreensão, depois o texto foi considerado em sua inteireza para produzir a interpretação. Uma coisa foi entender o que Deus disse, outra coisa foi entender com que objetivo ele disse, isto é, o que Deus queria que resultasse. Os levitas, sempre se atendo ao texto lido, meditaram com o povo no significado do texto, em sua intenção, o que se esperava dos ouvintes ao receberem aquela palavra.
  • Qual foi a terceira ação depois da leitura do texto? “a fim de que o povo entendesse o que estava sendo lido”. Hb. Bine בִּין = discernir, sentir, entender de um modo experiencial, que envolve o sentimento, o desejo (ARC “se entendesse”). Embora seja a última ação antes do povo ir colocar o texto em prática, o termo traduzido aqui como entender foi usado nos versos 2, 3, 7, 8, 9, 12, seis vezes, mostrando uma intencionalidade que começou bem antes da leitura do texto. Esse discernimento pleno do texto foi provocado pelas instruções nos versos 9 a 11, que podem ser resumidas em quatro ações: a) reiterar o mandamento compreendido e interpretado “Este dia é consagrado ao Senhor, o nosso Deus”; b) determinar o que não se devia fazer, isto é, o que o mandamento não pedia “Nada de tristeza e de choro!”; c) orientar o que se devia fazer, ou como o mandamento poderia ser cumprido “Podem sair, e comam e bebam do melhor que tiverem, e repartam com os que nada têm preparado”; d) prometer o que podiam esperar se fossem obedientes “a alegria do Senhor os fortalecerá”.

[Sekel/ considerar] 
12Então todo o povo saiu para comer, beber, repartir com os que nada tinham preparado e para celebrar com grande alegria, pois agora compreendiam as palavras que lhes foram explicadas.”

Basicamente, este verso afirma que a intenção de Esdras e seus ajudantes foi plenamente alcançada, uma vez que o verbo que revela sua intenção no verso 8, “a fim de que o povo entendesse”, é o mesmo utilizado para identificar o resultado (pois agora compreendiam = Hb. bine). O processo todo de (Qora, Parash, Sekel) é resumido no verso 12 como hb = yada com o significado de conhecer, no tempo verbal hiphil, causativo, ou seja, o povo agora entendia aquilo que se lhes deu a conhecer.

A intencionalidade (v.8) e o sucesso (v.12) do entendimento da Lei do Senhor são precedidos pela menção da seleção dos ouvintes, nos versos 2 e 3, como 'aqueles que podiam entender', e a descrição da ação nos versos 7 e 9, onde o mesmo verbo (hb. bine) é usado no tempo hiphil, causativo de discernir/ sentir, portanto, causar o entendimento. Houve a) preparação, b) ação, c) objetividade e, portanto, d) sucesso no sentir/ discernir a Lei do Senhor.

No que se refere à preparação, a expressão, “todos os que podiam entender”, embora seja traduzida como “sábios” pela ARC, tem o sentido inclusivo de crianças, adolescentes e jovens, além de homens e mulheres adultos, as pessoas com capacidade cognitiva. Portanto, não houve distinção de gênero ou de idade entre as pessoas que poderiam chegar ao entendimento, depois de serem ajudados na compreensão e interpretação do que foi lido.

Também é notório que o efeito da pregação de Esdras e de Neemias foi uma mudança que superou a psicologia. O texto diz que “todo o povo estava chorando enquanto ouvia as palavras da Lei”. Tomados por um senso de dever cerimonial da religiosidade formal ou pelo remorso e, talvez, por um sentimento de impotência e derrota, as pessoas estavam chorando, mas a Palavra de Deus lhes orientou a mudar suas emoções e suas práticas e eles o fizeram. Esse foi o sucesso de uma pregação intencional, que, desde o início desejou produzir transformação.

  • Exame: os judeus haviam caído em uma religiosidade formal, que não tinha mais o poder de afetar sua conduta e comportamento cotidianos, nem modificar seus valores morais e espirituais. Nisso, haviam abandonado Jerusalém e o culto que tinha sede ali.
  • Diagnóstico: Neemias identificou a falta de uma verdadeira adoração como a causa de todo aquele mal. Por isso ele criou em Jerusalém as condições necessárias para que o povo pudesse ‘habitar’ novamente ali e adorar ao Senhor verdadeiramente.
  • Receita: a adoração não começou com uma inauguração suntuosa como no templo de Salomão. Ela começou com o estudo, prática e transmissão da palavra de Deus. Essa é a glória da Segunda Casa, uma adoração fundamentada no entendimento da Palavra de Deus.

[Bine/ perceber] 
Fala-se muito hoje de Teologia Bíblica e de Pregação Expositiva como marcas de uma igreja saudável. De fato, nossas igrejas foram pioneiras nisso, já que cada irmão, por mais simples que fosse, sabia ler e expor um texto, versículo por versículo, sempre com grande ênfase na aplicação pessoal, exatamente como lemos nesse texto.

Infelizmente temos sido contaminados e atrasados por diversos vícios que nos desviaram do caminho nos últimos anos. a) alegorização, a atribuição de significados que não estão no texto; b) opinião  – os 'eu acho' e 'eu penso' embutidos na pregação; c) analfabetismo funcional – a dificuldade de entender o texto que é lido e a incapacidade e levar os ouvintes à compreensão; d) contaminação ou revisão do texto, principalmente à obscuridade das matérias humanistas, aprendidas nas faculdades e aplicadas indiscriminadamente.

Se queremos ver uma verdadeira mudança, se desejamos alcançar as novas gerações, se desejamos um verdadeiro avivamento, devemos colocar em prática o exemplo que Neemias nos deu nesse texto. Antes de tudo, precisamos restaurar a igreja como um lugar seguro, social e emocionalmente, onde as pessoas queiram estar. Em poucos anos a igreja deixou de ser um ambiente preferencial para se tornar um local de passagem. É preciso chegar a uma situação em que as pessoas desejem permanecer, desejem estar na Igreja.

  • O que aprendemos aqui é que a pregação é o único recurso que produzirá o reavivamento. Tudo o que fazemos como pastores e líderes deve estar direcionado para a pregação da Palavra de Deus. Porém, todo o esforço de pregação deve apontar para um efetivo entendimento, ou seja, uma percepção que afete o sentimento e o desejo dos ouvintes. 
  • Não podemos permitir que a pregação se torne algo apenas formal, obrigatório, cerimonial. É preciso pregar com a intenção de produzir os frutos dignos de arrependimento, como Jesus disse: “Está escrito que... em seu nome seria pregado o arrependimento para perdão de pecados a todas as nações...” Lc 24:46,47.
  • Faça como os apóstolos, deixe outras atividades para se dedicar à oração e à Palavra. Ao fazer isso, construa um ambiente em que as pessoas queiram permanecer, leve as pessoas a reverenciar a Palavra de Deus distinguindo-a das palavras de homens, ajude as pessoas a compreender o texto, a meditar em seu significado e leve-as à prática do que compreenderam e interpretaram com orientações precisas.
  • Se você agir assim, será capaz de ver um grande avivamento, como Neemias viu, que consiste na mudança de atitude e de comportamento, para deixar os próprios desejos e cumprir a vontade de Deus. Esse é o Evangelho do Reino.
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José Bernardo, missiólogo, escritor, conferencista e pastor, fundou e preside a Agência Missionária de Mobilização Evangelística - AMME, é vice presidente da agência internacional de distribuição da Bíblia - OneHope.
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2 comentários:

  1. Maravilhosa palavra Pr Bernardo, Deus continue abençoando.

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  2. Boa é está palavra que nos dera tivesse o tempo necessário para espor toda a mensagem Deus em tudo pastor José Bernardo

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