7 de jul de 2017

Jesus e as crianças

José Bernardo

Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam.
Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: "Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele".
Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou.
Marcos 10:13-16

O texto a que nos propomos estudar aqui tem uma importância definitiva para a missiologia. A indignação de Jesus prenuncia isso, como também sua declaração: “pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas”. Essa frase define um público ou uma condição prioritária para a evangelização. Outro fator que indica a importância do texto é que três Evangelhos trazem esse relato: Mateus 19:13-15; Marcos 10:13-16; Lucas 18:15-17. Por outro lado, poucas passagens bíblicas tem sido alvo de tanta má interpretação, isso devido a preconceitos e precipitações na compreensão do texto. Essas más interpretações têm trazido graves problemas e desvios para a evangelização, por isso convido você a retornar comigo a esse texto e analisa-lo com mais cuidado.


[V] Traziam crianças a Jesus
Mateus e Marcos situam Jesus ensinando na Judeia, ‘do outro lado do Jordão’. Durante esse ensino, as pessoas começaram a trazer crianças para que Jesus as abençoasse. Os discípulos repreendiam as pessoas e o tom do relato é de que eles faziam isso achando que era a coisa certa a fazer. Jesus, porém, ficou indignado e lhes disse para não impedirem as crianças. O termo que Jesus usou parece ter sido bem severo. Impedir aqui pode derivar de um verbo que significa punir de modo a incapacitar, então, ‘não incapacitem as crianças’.

Porque Jesus distinguiu as crianças? "Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam” – aqui, o preconceito cultural de que as crianças são puras ou inocentes tem feito maior dano. O contexto não revela inicialmente a razão da distinção, mas a etimologia é bastante clara. Infelizmente a raiz do termo criança em português é bastante diferente, por isso o mal-entendido. O gr. paidion usado por Jesus, inclusive por Lucas que antes usa outra palavra, representa a criança sob estrita vigilância e treinamento (daí a palavra pedagogia no português). É muito provável que o termo derive do gr. paió, que significa corrigir. Portanto, a ideia que se destaca é a de alguém que está sendo corrigido, que é ensinável e moldável.

Como Jesus relacionou o Reino de Deus às crianças? “...o Reino de Deus pertence...” – o uso do termo ‘pertence’, como se indicasse propriedade, tem causado outro enorme problema de interpretação. A palavra assim traduzida é o gr. eimi, verbo que significa ser, existir. Portanto, o Reino é de Deus (Mateus escrevendo aos judeus limita o uso do nome de Deus e prefere ‘dos céus’). O Reino é gerado por Deus, pertence a ele e a ninguém mais. Mas esse Reino, que é de Deus, ‘existe’ ou ‘é’ para as crianças e para os que são semelhantes a elas. Portanto, o Reino que é de Deus, existe para aqueles que são corrigíveis ou ensináveis.

O que significa o Reino de Deus? “...pois o Reino de Deus...” – aqui tem imperado o preconceito que sintetiza a salvação e as riquezas divinas sob a epígrafe do Reino, fazendo com que muita gente conclua que as crianças já têm salvação assegurada por sua suposta inocência. Isso se opõe claramente ao fato de que as crianças são geradas em pecado e carecem da salvação que somente se encontra em Jesus Cristo, pela fé. O fato é que Reino de Deus significa ‘governo de Deus’, ou seja, o governo de Deus existe para aqueles que são corrigíveis, ou ainda, Deus só governa aqueles que se deixam corrigir, as crianças e aqueles que são semelhantes a elas.

A que grupo de pessoas Jesus se referiu? “...aos que são semelhantes a elas” – Jesus não limitou o governo de Deus às crianças. Ele as incluiu, mas não exclusivamente. Nos três evangelhos Jesus mostrou que se referia a todas as pessoas que, semelhantemente às crianças, podem ser educadas, ensinadas, moldadas ou corrigidas. Em Marcos e Lucas essa verdade é ainda enfatizada pelo relato da seguinte afirmação: “Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele".

O fundamento desse texto é muito semelhante ao que lemos em Provérbios: “Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles” Pv 22:6. A criança é moldável, ensinável, mas o adulto não. Seus comportamentos se cristalizam e ele permanece na posição a que chegou. A profunda mudança de vida que a conversão representa, exige um espírito moldável, como o de uma criança.


[O] Aos que são semelhantes a elas
A intenção primária de Jesus foi que as crianças pudessem chegar até ele. Mas o Senhor utilizou o evento em questão para estabelecer um ensino que define o público para o qual o Reino de Deus existe. Esse ensino exigiu de seus ouvintes e exige dos leitores posteriores uma cuidadosa avaliação de seu próprio caráter.

No que se refere a deixar as crianças virem a Jesus, percebemos a inclusão delas. As crianças precisam chegar a Jesus para que ele as abençoe, isto é, diga boas coisas sobre elas. Lucas corrobora essa ideia dizendo: “Mas Jesus chamou a si as crianças” Lc 18:16.  Além disso as crianças foram trazidas pelos adultos, que insistiram nisso apesar de terem sido repreendidos. Jesus também deu duas instruções aos seus discípulos: primeiro, para permitirem, liberarem, facilitarem para as crianças chegarem a ele; segundo, para não impedirem, ou seja, não dificultarem, não agirem de tal forma que as crianças ficassem impossibilitadas de atender ao chamado de Jesus.

Sobre a avaliação que cabe a cada crente fazer, é se mantém-se como uma criança que pode ser corrigida, ensinada, moldada. Esse espírito ensinável é requerido por Deus em muitos momentos, sendo um muito sublime aquele em que Jeremias é mandado descer à casa do oleiro: "’Ó comunidade de Israel, será que não posso eu agir com vocês como fez o oleiro?’, pergunta o Senhor. ‘Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos, ó comunidade de Israel’” Jr 18:6. Então, nossa oração deve ser aquela de Davi no Salmo 51, por um coração contrito, um espírito quebrantado, livre da dureza que impediria nosso acesso ao governo de Deus sobre a nossa vida.


[S] Impôs-lhes as mãos e as abençoou
Considerando o texto que examinamos, bem como sua intenção, como devemos nos sentir diante disso? Que profundos desejos deve provocar em nosso coração?

Antes de tudo, devemos abrir mão de toda a dureza, de nossas opiniões, intenções e planos, para estarmos à completa disposição de Deus, para fazer tudo o que ele quer, como ele quer. Agora mesmo, que coisas você resolveu, das quais precisa abrir mão, para fazer o que Deus quer?

Devemos cuidar de nossa missiologia para alcançar preferencialmente as crianças, os adolescentes, os jovens, enquanto ainda têm um cérebro maleável, um desejo influenciável. Precisamos alcançar as pessoas enquanto elas ainda estão abertas à mudança. Então, que posturas, procedimentos e atividades é preciso mudar em seu ministério e igreja para priorizar a evangelização dos mais jovens?

É necessário também compartilhar a correta compreensão e interpretação desse texto, visto que as más interpretações que se fazem dele estão criando muita confusão e desvio do propósito missionário da Igreja. Quando você compartilhará a correta compreensão e interpretação desse texto com o grupo do qual você participa?

Finalmente, devemos nos animar a multiplicar a pregação do verdadeiro Evangelho do Reino de Deus, esse em que Deus reina em Cristo soberanamente sobre nós. A boa notícia que temos para o mundo é que Deus em Cristo deseja governar as vidas daqueles que ainda caminham sem controle para a destruição. Faça uma avaliação da boa notícia (evangelho) que você tem dado às pessoas: é o Evangelho do Reino de Deus?



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