19 de abr de 2017

Urbanização e crise missional

Por José Bernardo

No meio rural, em pequenas comunidades, o senso de coletividade predomina. Independentemente da religião, a fé é coletiva, as pessoas creem na mesma coisa e a crença de uma confirma a crença da outra. Tendo a mesma fé, as pessoas têm a mesma esperança, esperam pelas mesmas coisas, têm as mesmas aspirações, os mesmos desejos e sonham com as mesmas coisas. Tendo a mesma esperança, as pessoas trabalham juntas para alcança-la, cooperando umas com as outras em abundantes atitudes favoráveis aos outros. Quando as pessoas mudam para grandes cidades e passam a conviver com outras de diferentes fé, esperança e amor, sofrem crises em cada uma dessas virtudes. A vida na cidade desvirtua as pessoas e desagrega as comunidades.

A primeira crise a se instalar é a crise de fé. Para conviver com pessoas que creem em coisas divergentes e até opostas, é preciso tolerar suas ideias, supondo que todos, de alguma forma estão certos. Ao fazer isso, aceita-se intimamente que todos estão errados e negando-se a própria fé. 

A segunda crise é a de esperança. Não sabendo em que crer, não se sabe o que esperar. Os esforços se voltam para o presente, as aspirações diminuem e mergulha-se na desesperada busca por sensações físicas para, em vão, tentar substituir a falta do sonho, de propósito e objetivos. 

Não sabendo o que esperar, vivendo sem propósito e objetivos, dedicando-se apenas às sensações, a atitude se limita egocentricamente, egoisticamente. A cooperação, gentileza e amizade desaparecem ou são substituídas por relações formais, ditadas socialmente. Essa é a terceira crise, a crise de amor.

Tais crises afetaram a Igreja. Chegamos a uma situação em que os crentes não vivem a fé cristã como verdade absoluta, sua esperança pelo céu diminuiu (como também o horror ao inferno), portanto, sua atitude evangelística enfraqueceu. Os crentes não esperam um galardão para uma vida frutífera na terra, não vivem na esperança de encontrar-se com Jesus, não se angustiam com a ameaça do inferno às pessoas com quem convivem, e nem estão tão ligados a elas para se importarem com seu destino eterno. É por isso que a evangelização se tornou uma atividade incompreensível para o crente pós-moderno.

Nas grandes cidades do Império Romano, em uma situação de pós-modernidade, o apóstolo tanto enfrentou essa tríplice crise de fé, esperança e amor, como frequentemente ministrou sobre esse tema, procurando restaurar cada um desses elementos e devolver aos crentes uma vida espiritual significativa e um relacionamento verdadeiro com Deus.

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José Bernardo é pastor, pesquisador, escritor e conferencista. Fundou e preside a agência missionária AMME evangelizar, é vice-presidente da OneHope, agência internacional de distribuição da Bíblia e catalizador do movimento Visão 2030 para a evangelização global.

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