16 de out de 2015

Do sustento missionário
em tempo de crise

Portugal 15/04/b
José Bernardo
Portugal é um campo missionário. Talvez, o destino mais objetivo para os missionários brasileiros. No entanto, em minha recente visita missionária àquele país, me defrontei com a dificuldade dos obreiros em se manterem ali. A diferença entre o euro e o dólar aumentou bastante no último ano, de R$ 3,10 para 4,30. A crise econômica, la e cá, compõem um cenário que dificulta muito a sobrevivência, e obriga repensar o chamado e sua realização. Ouvi, com muito sentimento, o relato dessas dificuldades por parte de vários missionário de diferentes igrejas e agências brasileiras. A primeira coisa em que pensei foi no ideal missionário da Igreja em Antioquia. Lucas nos conta que: "E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado." At 13:2. O princípio que se me destaca nesse verso, é o de um chamado coletivo. O Espírito Santo falou à Igreja, e entregou a ela a responsabilidade do envio dos missionários. Muitas vezes, e até com aparentes justificativas, crentes têm atendido a um chamado que igreja não ouviu, separando a si mesmos sem a cooperação da igreja. Infelizmente há até agências missionárias que endossam esse descaminho. O resultado, quase sempre, é o isolamento no campo, e a dificuldade de manutenção. Porém, quando encontramos missionários que foram enviados por suas igrejas, as quais assumiram compromissos com eles diante de Deus, e que agora não têm os recursos suficientes para se manterem no campo, percebemos a iniquidade.

O endividamento. É óbvio que o compromisso da igreja deve ser feito considerando a economia do objetivo missionário. Não discutirei isso aqui. O que quero discutir é a razão de tantas desculpas para que o compromisso missionário não seja mantido. Que a arrecadação da igreja diminuiu, que a igreja precisa investir em outras áreas, que o país passa por dificuldades econômicas, todas essas desculpas não se sustentam por si mesmas, há algo por trás delas. Ouso dizer que a principal razão de as igrejas não honrarem seu compromisso com os missionários é o endividamento dos crentes. Primeiro eles se endividam, então o dinheiro não basta para o compromisso que assumiram, depois vem as desculpas. O fato é que vivemos em uma Igreja mais materialista, uma que cede aos apelos do consumismo, que ama o mundo e as coisas que há no mundo. É essa Igreja que se deixa enredar pela concupiscência da carne, dos olhos, e pela soberba da vida, que se torna escrava do cartão de crédito, do cheque especial e dos financiamentos, é ela que substitui o sustento missionário por desculpas, que deixa de fazer a vontade de Deus, que põe em risco sua eternidade.

O eclesiocentrismo. Recentemente, estava em uma reunião de pastores em que um líder teve a oportunidade de apresentar a nova eclesilogia que sua igreja estava adotando. Com um diagrama de vários círculos concêntricos, ele explicou como as pessoas deveriam ser envolvidas a partir dos relacionamentos pessoais até a completa integração como discípulos. O que foi de estranhar, é que no círculo central estava a igreja, e Cristo não aparecia de modo algum. A proposta era fazer discípulos para a igreja, O que obviamente não é a mesma coisa que fazer discípulos para Cristo. Essas novas propostas eclesiais, vendidas com todos os recursos de marketing e propaganda desde os anos 90, estão desviando o foco missionário das igrejas para concentrá-las na construção de redes de consumo. A igreja se torna um grande centro de serviços, e já não há espaço para evangelização, seja cultural, seja transcultural. Na mesma linha estão as igrejas que adotam a pregação da prosperidade em cultos personalistas, tanto eclesiocentricos quanto materialistas. Por outro lado, igrejas que adotam outra interpretação libertina das Escrituras, para se tornarem organizações não governamentais, e reduzirem o Evangelho à ação social, chegam exatamente à mesma configuração abjeta. Parece aceitável, então, às igrejas que se entregam a essas novas eclesiologias, desmantelarem os seus programas missionários, ou limitarem-se a um tipo de expansionismo em que apenas exportam seus modelos eclesiais apócrifos. Os missionários são chamados de volta (ou abandonados), não encontram mais a igreja da qual partiram e a missão bíblica se torna inviável.

A crise vocacional. Eu insisto, estamos vivendo uma severa crise vocacional. As famílias têm verdadeira aversão a que seus jovens sejam chamados ao trabalho missionário e deixem de lado os planos de enriquecimento. Para compensar, surgem novas formas de fazer "missões", ridículos simulacros que mal escondem a prioridade materialista. Quando não, tudo é missões; tudo, exceto evangelizar. A pressão humanista sobre a igreja e o desejo dos crentes de serem aceitos pela sociedade mundana, admitem até mesmo o trabalho de promoção social, desenvolvido na mais ampla tolerância ideológica, jamais a evangelização de Jesus Cristo como verdade absoluta e única salvação. Nesse cenário, o verdadeiro missionário é um instituto anacrônico: rejeitá-lo garante a secularização, a missiologia reacionária e o ativismo compensatório. A crise vocacional atual não é mais uma crise pessoal, não é a falta de jovens desejosos de entregarem sua vida à evangelização; a crise vocacional é orgânica, é o resultado de uma igreja esquecida de sua missão, apaixonada por esse mundo, seduzida pelas propostas do humanismo. Uma igreja que não chama seus jovens à santificação, ao culto sacrificial, que não se consagra às prioridades de Deus. Uma Igreja que não serve. É essa crise na igreja que faz minguar o sustento missionário: não há amor, não há interesse e não há convicção, como haveria investimento?

Quando aconselho missionários sobre o sustento, baseio-me nos quatro princípios expressos por Jesus quando disse “...pois digno é o obreiro de seu salário...” Lc 10:7: a) o princípio da dignidade – quando posto na balança o serviço missionário vale seu peso em recursos materiais para a subsistência, de modo que o salário do obreiro não é um favor; b) o princípio do trabalho – o missionário deve ser um trabalhador, com horários certos, tarefas regulares, prestação de contas e principalmente resultados; c) o princípio do salário – uma recompensa apropriada ao trabalho realizado, não uma ajudinha, um ‘cala-boca’, um ‘agrado’; d) o princípio da propriedade – o salário é do obreiro, não pode ser usado para cobrir outras despesas da igreja, não pode ser desviado. Sobre isso, embora Tiago tenha se referido aos patrões e trabalhadores seculares, quem se oporia a que isso seja aplicado à realidade do sustento missionário? “Vejam, o salário dos trabalhadores que ceifaram os seus campos, e que por vocês foi retido com fraude, está clamando contra vocês. O lamento dos ceifeiros chegou aos ouvidos do Senhor dos Exércitos.” Tiago 5:4. O missionário não pode estar no campo por um desejo particular, uma conveniência pessoal, um sonho individual. Ele deve ter sido enviado pela Igreja, e esta não pode enviar uma ajudinha e esperar que o missionário se arranje. É urgente superar as desculpas do endividamento, os desvios do eclesiocentrismo e as aversões anti vocacionais. É preciso restaurar o investimento na missão bíblica da Igreja de ir por todo mundo e pregar o Evangelho a toda criatura (Mc 16:15). Mas, como pregarão se não forem enviados? (Rm 10:15).

2 comentários:

  1. Pastor, quais seriam essas novas formas de se fazer missões?
    Em Cristo
    Rafael

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    Respostas
    1. Parece-me que a pergunta é "Quais seriam as formas de fazer missões sem cumprir a missão?", Rafael. Toda vez que um esforço missionário não resulta na pregação do Evangelho em todo o mundo e a toda criatura, essa é uma forma de missões que a Igreja deve rejeitar. Se não é pregação, se não é Evangelho, se não é no mundo ou se não alcança pessoas, então não é a missão.

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