9 de out de 2015

Da responsabilização e do
empoderamento dos jovens

Portugal 15/03/a
José Bernardo
Há algum tempo escrevi um artigo sobre o ‘ministério dos adolescentes’ a partir da etimologia da palavra ‘diversão’ que define a maior parte dos programas para esse público n. O termo é composto do prefixo ‘di’ que significa separar e o sufixo ‘vertir’ (Lat. vertere), que significa virar. Portanto, a ideia básica é a do desviar, do ir em uma direção diferente. O problema que apontei é que a ‘diversão’ tem tirado adolescentes e jovens do Caminho, levando-os para longe da missão da Igreja e da vocação dos cristãos, concentrando-os na autoindulgência, nos prazeres da carne e na vaidade desse mundo. Por traz desse desvio está a convicção de que a adolescência e a juventude não são o tempo para a responsabilidade ou para o trabalho, mas para o ócio e para a despreocupação. Foi assim que um líder de adolescentes reagiu furiosamente ao meu artigo, sentindo-se agredido em seu programa exclusivamente divertido. Ele não somente trata os adolescentes como pessoas incapazes de conversão, santidade e ministério, como acredita e faz apologia a isso. Eu o convidei a participar de uma de nossas escolas para ver adolescentes e jovens orando, estudando a Bíblia e evangelizando, mas ele achou que não precisava disso. Meu diagnóstico é que uma geração de ‘filhos de crentes’, sem uma experiência real de conversão, está na liderança dos ministérios de adolescentes, incapazes de ensinar aquilo que nunca aprenderam. Para muitas igrejas é o fim. Mas o que isso tem a ver com minha recente viagem missionária a Portugal?

Uma porta aberta. Quando realizamos a extensa pesquisa SUPER20 e detectamos que 77% de todas as conversões na Igreja Evangélica Brasileira aconteceu quando as pessoas tinham até 24 anos de idade, entre crianças, jovens e principalmente adolescentes, passamos a insistir sobre a importância estratégica de evangelizar e pastorear essas faixas de Idade. Assim, quando fui a Portugal, dessa vez também, propus nossa experiência no Brasil como estudo de caso. Fiz isso porque nossa visão não se apoia meramente no evento social, mas nas novas descobertas da neurociência que mostram como o cérebro dos adolescentes está mais pronto para a conversão e para o serviço cristão do que o dos adultos. Isso determina a urgência de um ministério bíblico para essas idades. A evangelização e o pastoreio dos mais jovens têm sido uma porta para a Igreja Brasileira e estou seguro de que o é também para a Igreja Portuguesa. Mais ainda, é a chance de continuidade e de saúde da Igreja. Portanto, é maligna toda a influência, postura e prática que procura desincumbir e incapacitar essas faixas de idade para a santidade e para o ministério. Infelizmente é o que há. As concepções da psicologia sobre adolescência, as questões políticas e econômicas, produziram uma visão protecionista do adolescente (inclusive alargando o período da adolescência), tornando-os inimputáveis e irresponsáveis, desnecessários e egoístas, incontroláveis e hedonistas. A participação social que deveria iniciar-se na infância, e poderia ser almejada e bem recebida, primeiro é procrastinada e depois se torna impossível. O resultado é adultos incapazes de manter um casamento ou educar filhos, despreparados para ir além de uma visão egocêntrica do mundo, inúteis para serem membros do Corpo de Cristo.

A responsabilização. Na contracorrente do esforço desse mundo para escravizar adolescentes e jovens à diversão, o primeiro desafio de um pastor ou líder de ministério, seja no Brasil ou em Portugal, é a responsabilização. A um líder inconformado com a carnalidade dos adolescentes em sua igreja aconselhei que pregasse sobre a cruz de Cristo. É preciso armar-se novamente da Espada do Espírito para ministrar aos adolescentes e jovens de um modo que morram com Cristo para ressuscitarem também com ele. A Igreja precisa insistir com esses membros que eles são responsáveis perante Deus por sua santidade e por seu ministério, e que são imputáveis diante daquele que julga os vivos e os mortos. Nesse sentido, o muito que se fala e se pena pelo afastamento dos filhos da Igreja no início do Ensino Médio ou da Universidade pode ter uma resposta inesperada e até indesejável no capítulo 15 de João: “Todo ramo que, estando em mim, não dá fruto, ele corta; e todo que dá fruto ele poda, para que dê mais fruto ainda.” João 15:2. Quem disse que eles se afastam da Igreja porque querem? Eles se afastam porque não estão ligados a Cristo, porque não se santificam; eles se afastam porque não produzem o fruto que Cristo quer, porque não cumprem a missão. Se não levarmos os adolescentes a negarem a si mesmo e a crucificarem a carne com seus desejos, eles não seguirão a Cristo. Mas, se os levarmos à morte do eu, para que Cristo viva neles, então viverão verdadeiramente. É pouco provável que um adolescente divertido, entretido pela Igreja, se converta algum dia. Aceitar a hipocrisia dessa situação é cevá-los para que o pecado os consuma completamente. O ministério dos adolescentes e jovens como creche de crianças grandes ou clubinho para socialização é tão inútil para o Reino de Deus que seria melhor não existir.

Um segundo passo, e ainda mais difícil será o empoderamento. Os pais não acreditam neles, o sistema não está preparado para seu protagonismo e a Igreja não lhes reservou lugar, exceto a salinha ou o culto extra e heterodoxo. Uma apresentação musical ou de teatro é recebido com simpatia, mas, um adolescente sofrendo pelos pecados de sua geração e lutando pela transformação de vidas, bem, isso será visto com estranheza. Alguns pais podem ser até mesmo agressivos quando a Igreja incentiva a consagração de seus filhos e, em sua opinião, arrisca-lhes o futuro de desesperada e viciosa busca pelo dinheiro e pelo status. No cúmulo está que os próprios adolescentes não acreditam que têm a capacidade ou a importância para serem membros efetivos do Corpo de Cristo e ministrarem para produzir os frutos que se espera deles. É preciso convencê-los de que receberam dons e até de que são, eles mesmos, dons que a Igreja não pode dispensar. Eles devem saber que, sem eles, a Igreja está fraca, fica doente e morre. Depois é necessário costura-los e reforçar suas conexões e interações com a igreja: “Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.” Efésios 4:4-6. É preciso levar os adolescentes a serem, verdadeiramente, membros funcionais do Corpo de Cristo, operando conforme a graça especial que receberam de Deus em sua idade.

Não acho que a responsabilização e o empoderamento de adolescentes e jovens seja tarefa fácil. Não é em Portugal e nem é no Brasil. O secularismo nas famílias, a alienação de adolescentes e jovens, a falta de pro-atividade nas igrejas, cada vez mais apenas reacionárias, principalmente pela falta da ousadia dos mais jovens, estas são trincheiras inimigas que pastores e líderes precisam atravessar. Incluir adolescentes como alvos e como agentes da evangelização é uma batalha, uma guerra contra a carne e contra o mundo. Quem quiser aceitar esse desafio deve estar preparado para lutar, uma luta difícil com frutos demorados e raros no início. Não é uma luta para gente imediatista ou simplista, nem para alguém que não esteja disponível a dedicar-se em grande medida. Os pessimistas não vencerão, pois essa é uma guerra para lutar-se com esperança e com fé. Essa é uma luta necessária, urgente e, em havendo perseverança, trará resultados eternos, de grande impacto e que se desdobrarão por outras gerações: a responsabilização e o empoderamento de adolescentes e jovens é uma vitória para a grande glória para Deus.

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