4 de out de 2015

Do marco neurológico na
compreensão da adolescência

Portugal 15/02/a
José Bernardo
Um emigrante, há muitos anos vivendo nos Estados Unidos, resumiu para mim a experiência inicial de instalar-se em outra cultura: primeiro, uma fase de justificativa, em que o novo estado é melhor em tudo do que a própria nação; depois, uma fase de saudosismo, em que se lembram e promovem as coisas boas do lugar de origem. Somente após superar essas fases comparativas (alguns nunca as superam) é que o emigrante se torna capaz de entregar-se à experiência única de inclusão na nova cultura. Esse impulso para comparações afeta também a experiência missionária transcultural, de tal forma em Portugal que existe grande aversão e prevenção contra a tentativa de traçar paralelos entre a Igreja Brasileira e a Igreja Portuguesa. Durante seu esforço de adaptação, emigrantes e missionários brasileiros insistiram tanto em comparações subjetivas e incoerentes entre as duas nações que os irmãos portugueses ficaram saturados disso. O problema é que essa aversão a comparações pode dificultar, por exemplo, estudo de casos e tomada de modelos de ministério, justo quando eles seriam muito úteis.

Em minha recente viagem missionária a Portugal, também corri o risco das comparações, afinal, estando ali por curto prazo, as comparações parecem ser o único modo de compreender outra cultura. No esforço honesto de entendimento, nosso cérebro procura similaridades e disparidades. Confesso que precisei da ajuda de colegas mais experientes e criteriosos, a quem pedi insistentemente que avaliassem meus planos e ações. Então, quando eu me propus a mostrar a composição da Igreja Brasileira como um estudo de caso, enfatizando a importância das conversões e participação de crianças, adolescentes e jovens, primeiro evitei os números e me concentrei nos percentuais. Uma apresentação proporcional ajudou a contornar a aversão. Nesse esforço eu me baseei em uma ampla pesquisa sobre o crescimento e composição da Igreja Brasileira e conceitos oriundos que realizamos com nosso ministério e denominamos SUPER20. Também me concentrei em um parâmetro menos susceptível às particularidades culturais: trabalhei a partir do marco neurológico, definindo infância, adolescência e juventude como reflexo da estrutura cerebral diferenciada e típica de cada idade.

Adolescentes são adolescentes. Estou convicto de que crianças, adolescentes e jovens, SUPER20 – os 20 anos em que as pessoas estão mais abertas a aceitar e participar do Evangelho, são a porta para Portugal e para a Igreja Portuguesa, tanto quanto têm sido para o Brasil e para a Igreja Brasileira. Não acho que isto esteja limitado a particularidades dos contextos, pois o cérebro dos brasileiros se estrutura e se transforma exatamente como o cérebro dos portugueses. Por isso insisti com os irmãos portugueses, da mesma forma como tenho insistido com os brasileiros, que o adolescente não seja visto como alguém em transição, entre a criança que era e o adulto que ainda virá a ser. O adolescente, brasileiro ou português, tem um cérebro de adolescente, dons de adolescente, lógica de adolescente, propositadamente desenhados e adequados para os desafios que devem enfrentar em sua idade. Seus dons são necessários para compor a completeza do Corpo de Cristo, mas deixarão de existir na medida em que os adolescentes entrarem na juventude. A inovação, a ousadia, o impulso, a intensidade emocional, a amplitude relacional, são contribuições que as pessoas podem dar enquanto são adolescentes. Conforme a idade chega, o cérebro se transforma e os dons serão cada vez menos esses, cada vez mais outros. É urgente, pois, que no Brasil ou em Portugal, sem as pressões da comparação, a Igreja pare de esperar que os adolescentes sejam outra coisa para só então incluí-los. Adolescentes são adolescente e, como tal, devem ser membros funcionais do Corpo de Cristo.

Adolescentes não são crianças. Calcula-se que os impulsos elétricos percorrem o cérebro das crianças a 7 quilômetros por hora. O cérebro dos adolescentes passa por dois eventos que o diferencia do das crianças: ao primeiro, chamo de poda, que é quando até 50% das sinapses são eliminadas, diminuindo-se a massa cinzenta; ao segundo, chamo de isolação, que é o reforço da bainha de mielina, o revestimento que aumenta a massa branca. Nas áreas em que esses dois eventos ocorrem, os impulsos elétricos passam a percorrer os neurônios a 350 quilômetros por hora, 50 vezes mais rápido do que no cérebro das crianças. Assim, o pensamento dos adolescentes se torna mais especializado e mais rápido e eles são mais capazes para ver, ouvir e sentir. Percebem cores que ainda não percebiam, ouvem sons e discernem timbres que pareciam não existir, explodem em emoções primárias e a vida se torna muito mais intensa. Sua memória de curto prazo se amplia, tornam-se hábeis na comunicação e capazes de sustentar um debate ou fazer um diálogo interno para estabelecer o que é melhor ou mais justo. Desse modo se habilitam para uma fé racional, primeiro argumentativa e depois experiencial (relacional). Isso diz que os adolescentes não deveriam ser tratados como crianças na Igreja, cuidados como incapazes, colocados em espera até se tornarem adultos, autorizados a evitar o compromisso. Infelizmente é o que tem acontecido, e essa é a razão de deixarem a Igreja: não serem parte dela. Os adolescentes podem e devem participar do Corpo de Cristo como membros funcionais.

Adolescentes não são adultos. Os dois eventos que relatei acima não ocorrem ao mesmo tempo em todo o cérebro, e é isso que diferencia os adolescentes dos adultos. Poda e isolação acontecem primeiro no que podemos denominar como Cérebro Motor-Sensitivo, a sede do controle de movimentos e sentidos. Assim o adolescente alcança grande capacidade no domínio do corpo, destacando-se nos esportes e na música, por exemplo. Também é mais capaz de ver, ouvir, sentir fisicamente e consequentemente falar. Depois a especialização e aceleração alcançam o Cérebro Emotivo-Identitário, permitindo ao adolescente redefinir-se como pessoa e experimentar a intensidade das emoções primárias: medo, euforia, paixão, nojo etc. Diferente dos adultos, o adolescente não desenvolve a especialização e aceleração no Cérebro lógico-projetivo e, portanto, não tem o pensamento adulto que avalia possibilidades futuras, para tomar decisões preventivas. Isso, longe de representar limitação ou imaturidade do cérebro adolescente, mostra a adequação de cada um, adolescente e adulto, aos desafios próprios de sua idade e condição: os adolescentes vivem no presente, os adultos no futuro; os adolescentes tomam decisões emocionais, os adultos intencionais; os adolescentes agem, os adultos ponderam. É possível desfiar essas diferenças por praticamente todas as funções cerebrais. Então, é preciso deixar de lado a ideia de que o desenvolvimento humano é linear, indo de crianças imaturas a adultos maduros, até porque não existe uma idade adulta somente, mas muitas. Os adolescentes são maduros para a realidade que devem enfrentar; são completos e perfeitamente dotados para o momento que vivem e, como tal, devem ser integrados à igreja para contribuir como podem.

Uma vez despertos em nosso ministério para a importância de crianças, adolescentes e jovens na composição da Igreja Brasileira, já que 77% das conversões aconteceram abaixo dos 24 anos de idade, 32,7% entre 11 e 17 anos, não fomos logo buscar uma resposta na ciência, mas na Palavra de Deus. “... Mas Deus estruturou o corpo dando maior honra aos membros que dela tinham falta, a fim de que não haja divisão no corpo, mas, sim, que todos os membros tenham igual cuidado uns pelos outros.” 1 Coríntios 12:24,25; esse e muitos outros textos que apresentam a Igreja como o Corpo de Cristo e cada membro como importante em sua função particular, nos deram a convicção de que adolescentes, jovens e crianças, devem ser incluídos como membros plenamente funcionais. Seus dons não podem ser dispensados, eles não devem ser segregados, antes, como parte integrante da Igreja, permanecerão por estarem ligados a ela, e a igreja se beneficiará disso, tornando-se mais dinâmica, mais inovadora, mais atuante e mais relacional. Considerando essa verdade absoluta sobre o Corpo de Cristo, olhamos para fora, para ver que ramo do conhecimento que já havia chegado à verdade. Por anos a Igreja manteve uma abordagem psico-pedagógica da infância, adolescência e juventude. Infelizmente isso contradisse o princípio de unidade do Corpo de Cristo. Adotamos a abordagem neurocientífica, então. Essa abordagem supera os riscos de paralelismos e comparações. Os adolescentes portugueses também estão prontos para dar à Igreja Portuguesa a contribuição de que ela precisa para entrar pela pós-modernidade adentro e enfrentar uma realidade pós-cristã, cumprindo sua missão e produzindo frutos para a glória de Deus.

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