2 de out de 2015

Dos dons de que a Igreja
Portuguesa carece

Portugal 15/1/a
José Bernardo
Em minha recente viagem missionária a Portugal, uma das primeiras coisas que ouvi de muitos pastores e líderes é a redução do número de igrejas. Segundo percebem, já não há igrejas evangélicas em muitas cidades onde havia pelo menos uma. Uma das diversas razões pode ser a incessante emigração dos portugueses em busca de melhores condições de vida. O sentimento é de carência. Faltam crentes, faltam pastores e líderes, faltam recursos e estrutura, faltam conversões. Assim, em um misto de expectativa e indignação pela dependência, a Igreja Portuguesa espera por dons, pelo benefício que Deus ou algum instrumento dele possa suprir. Mas, quais seriam os dons mais urgentes, aquilo de que a Igreja Portuguesa mais necessita? Penso em três coisas que poderiam modificar profundamente a realidade deficitária dessa Igreja e suprir amplamente a sua necessidade.

A carência de relacionamentos é patente. Há pouco relacionamento entre a sociedade portuguesa e a Igreja Evangélica, desconhecida, estrangeira, insuficiente e suspeita. Os crentes não constroem as pontes necessárias, seja por medo, por indisposição ou por desconhecimento. Transitam disfarçados de senso comum, descumprindo sua missão bíblica. Com isso a Igreja Portuguesa sofre de ilegitimidade e permanece alienada, incapaz de afetar a sociedade na qual flutua à deriva. A Igreja Portuguesa precisa de relacionamentos, entre seus membros, entre suas igrejas locais, entre a igreja e a população, entre a igreja e o contexto. A Igreja Portuguesa precisa de relacionamentos sadios, precisa ser uma lâmpada no lugar alto da casa, influenciando, iluminando, modificando a cultura e a vida em Portugal. Não há como fazer isso ensimesmada, emparedada, é preciso o dom das conexões, das interações, o dom dos relacionamentos. É preciso que a Igreja faça amigos, reforce laços afetivos e fortaleça os vínculos da paz.

Penso muito sobre nosso paradoxal conservadorismo, face à calorosa vivência como latinos. O fato é que somos conservadores. Embora os pecados, somos moralistas. Apesar das inovações amamos o antigo. Mesmo novidadeiros não largamos as tradições. Fartos, generosos e ainda assim singelos e econômicos. É admirável, e esses traços se veem muito mais nítidos em Portugal. A Igreja é afetada por essa personalidade preservacionista, sobrevivente, e resiste às mudanças. Mesmo quando muda, improvisa a forma, não o conteúdo. Mas, não estou falando de cosmética, não me refiro a maquiagens. Dizem que ‘velho é o pecado’, nesse caso, a falta de inovação é também falta de santidade. Quando falhamos em aplicar a essência da Palavra de Deus aos novos tempos e aos novos costumes, esse é o problema. Respondemos a perguntas que já não são feitas, regulamentamos o uso de coisas que já não se usam, discutimos assuntos que já não têm qualquer relevância. Sem inovação, a crença se desconecta da prática e a religião se torna velha, dormida e ultrapassa seu prazo de validade. A Igreja Portuguesa precisa do dom da inovação, de modo que o Evangelho possa ser novamente novidade, de modo que as pessoas possam achar nela a nova vida em Cristo.

Outro aspecto que compartilhamos, portugueses e brasileiros, é a ênfase no processo. De algum modo nos dedicamos tanto a fazer que nos esquecemos de produzir. Nesses dias completos de afazeres então, nos desconcentramos da igreja e logo nem fazemos e nem produzimos. Isso é um problema, pois, ainda que os fazeres sem resultado são inúteis, não há produto que dispense a ação. O negócio, o ócio, a família, os amigos... não sobra tempo para os fazeres da fé, exceto para aqueles ralos momentos do culto semanal. E que ninguém fale de deixar irmãos, ou irmãs, ou pai, ou mãe, ou mulher, ou filhos: isso é um absurdo! A prática da fé que dizemos ter é pouca, eventual e descontinuada. A falta de disponibilidade dos crentes inibe projetos maiores, que demandam associação e empenho; a igreja se limita a rotinas elementares. Por vezes retrocedemos ao medievo, incumbindo novos clérigos das responsabilidades comuns e eles se esgotam sem haverem substitutos. A Igreja Portuguesa precisa do dom da ação, uma ação que produza os frutos que Deus quer, e que, por isso mesmo, seja intensa, dinâmica e veloz. A Igreja Portuguesa precisa da dedicação de seus membros, de seu interesse em fazer para produzir os frutos que Deus quer.

“Mas a graça foi dada a cada um de nós segundo a medida do dom de Cristo.” Ef 4:7. O Ensino de Paulo aos efésios nos assegura de que Cristo deu à Igreja os dons necessários para que ela funcione bem. Os dons, naquele contexto, são pessoas. Então, devemos crer que os dons que a Igreja Portuguesa precisa já estão nela, os dons da Igreja Portuguesa são os seus crentes que, embora poucos, são muito preciosos. Se a carência persiste é porque há pessoas que não estão cumprindo sua função. Que pessoas, que membros serão esses? Certamente há muita gente que poderia funcionar melhor nas igrejas, mas eu direi que adolescentes e jovens precisam ser considerados de modo especial. A condição particular da idade faz com que eles sejam o dom do relacionamento, o dom da inovação e o dom da ação que a Igreja precisa. Desejosos de fazerem novos amigos e estarem sempre entre muita gente, inventivos e ousados nas mudanças, ativos e cheios de energia, nossos membros mais jovens precisam ser incluídos e participar ativamente da vida da Igreja. Precisamos vê-los como membros indispensáveis, contar com eles. Eles devem ser responsabilizados e empoderados para produzirem frutos como galhos verdadeiramente ligados à videira. Eu creio e insisto em que adolescentes e jovens são a porta aberta por Deus para que a Igreja Portuguesa entre vitoriosamente em uma nova era.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

É bem vindo seu comentário que honre e exalte a santidade do Senhor.