12 de abr de 2015

Os dilemas da novidade

Breve ensaio sobre a fé na adolescência

Mais de três quartos da Igreja Evangélica Brasileira é formada por pessoas que se converteram antes dos 24 anos de idade, conforme pesquisa que realizei e validei a partir de 2005. É isso que me levou a concentrar esforços na pesquisa e desenvolvimento da evangelização para essas faixas de idade que denominei SUPER20. Um diversificado conjunto de fatores faz com que o cérebro de crianças, jovens e principalmente dos adolescentes permita a abertura da porta da fé e da conversão e faça deles os campos prontos para a colheita. Um elemento marcante dessa realidade é a propensão para a novidade que, infelizmente, também produz um elevado índice de desvio da fé, principalmente no início do ensino médio e na entrada da universidade. Entre conversão e desvio estão os dilemas da novidade e aqui apresento cinco deles.

O dilema da experiência. A falta da memória de experiências significativas não condiciona o adolescente a um apego fisiológico com as crenças: elas não definem sua história. Por outro lado, há um impulso para a busca de novas vivências que, então, serão usadas para compor a identidade. O adolescente se caracteriza por uma grande fome de experiências e isso o leva ao cristianismo. Olhando assim, é fácil perceber o problema que é levar a geração que nasceu na Igreja a experimentar a novidade de algo que se tornou rotina. O dilema está em que que um cristianismo que não possa ser experimentado não será atraente, mas um cristianismo apenas sensorial não é genuíno.


O dilema do risco. O sistema neurológico de satisfação exige o risco que se encontra nas coisas novas para obter a gratificação química que traduzimos como satisfação. A tensão entre o novo e o antigo que caracteriza todas as propostas revolucionárias oferece essa oportunidade aos adolescentes e eles a buscam intensamente. Deixar tudo para seguir Jesus, enfrentar as dores e os desafios de tomar a cruz e segui-lo, sofrer por amor, enfrentar o desconhecido e buscar uma nova vida pode ser um apelo muito mais significativo para adolescentes do que para adultos. Quando os adultos constroem o cristianismo de estabilidade e conforto que eles querem, fazem-no desinteressante para os mais jovens.

O dilema da contradição. Adolescentes têm o benefício divino de praticamente zerarem sua identidade infantil e poderem reconstruí-la com suas próprias opções. Nesse processo, questionam o universo adulto e se opõem a muito do que os pais têm a oferecer. Os adolescentes querem ser diferentes e podem até optar por um sistema de crenças ou por uma comunidade de fé diferente da de seus pais. No passado isso tornou-se uma oportunidade para filhos de católicos ou espíritas encontrarem o cristianismo bíblico. Hoje, o mesmo processo de individuação pode estar levando os filhos dos crentes ao ceticismo.

O dilema da tecnologia. A tecnologia é o ambiente da inovação. Não é exatamente as coisas que fazemos que mudam, mas o modo como as fazemos. Ainda sem muito conteúdo e sem ter o que inovar nas coisas que devem ser feitas, os adolescentes se concentram na tecnologia e, por isso, a dominam mais facilmente do que os adultos. Aplicada à fé, essa configuração vai produzir uma religiosidade muito mais da aparência do que da essência, mais do processo do que do resultado, mais do discurso do que do caráter. Infelizmente muitos líderes têm procurado seduzir os adolescentes para essa novidade da forma, mas sabemos que ela é inaceitável – é uma figueira sem frutos.

O dilema da aprendizagem. Concordo com que nas pré-modernidades os mais novos aprendem dos mais velhos; nas modernidades os mais velhos e os mais novos aprendem juntos; nas pós-modernidades os mais novos ensinam os mais velhos. Esse é o momento da tecnologia e produz uma grande suspeita contra os mais velhos e qualquer coisa que eles tenham a dizer. Seus ensinos parecem, aos adolescentes, retrógados, reacionários, inválidos, ultrapassados e anacrônicos. A transmissão de conceitos perenes fica prejudicada e a manutenção das instituições se torna impossível. Esse processo desconstrutivo ameaça a integridade da família, da escola, do governo e da Igreja.

Considerando tais dilemas, entendo que na evangelização de adolescentes, filhos de crentes ou não, a solução tem que estar em que o cristianismo se refere à novidade, como Paulo o descreveu muito bem: “Portanto, fomos sepultados com ele na morte por meio do batismo, a fim de que, assim como Cristo foi ressuscitado dos mortos mediante a glória do Pai, também nós vivamos uma vida nova.” Rm 6:4. A vida cristã é nova quando comparada com o velho homem e, embora jovens, adolescentes são ‘velho homem’ e esse é o ponto de partida. No aspecto da mensagem que pregamos, Jesus traduziu a novidade do Evangelho na fórmula que utilizou seis vezes no capítulo 5 conforme Mateus: "Vocês ouviram o que foi dito... Mas eu lhes digo...” Mt 5:21-22. A novidade é retornar ao princípio, à essência. As sínteses com que a vaidade do velho homem corrompe o entendimento das Escrituras fazem a mesmice religiosa mesmo para os adolescentes, e o verdadeiro Evangelho se opõe a ela como novidade. Entender isso nos permite oferecer aos adolescentes de hoje o Evangelho de sempre, novo, nunca herético, nunca outro Evangelho.


Um comentário:

  1. (Olá. Grato por seus valiosos insights.) Questão: Isso quer dizer que uma abordagem, tipo "Gostavas de ser cristão, é? Calma, calma... isto é demasiada areia para a tua camioneta (expressão daqui de Portugal). Isto é bom demais para ti. Ainda não estás preparado para uma coisa tão boa." as coisas teriam mais sucesso? Explicando: em vez de eu fazer tudo para o jovem se ligar à Igreja (apanhá-lo de carro - fazer de mim taxista -, entrete-lo com filmes e pipocas e saídas de bowling), deixá-lo "babar por Cristo" seria melhor? (Deu para entender ou compliquei?... Um abraço transatlântico!

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