7 de abr de 2015

Deus, Igreja e família

Breve ensaio sobre a relação

É triste ver quanto a ansiedade pela aprovação e aceitação do mundo tem pervertido a visão e a ação da Igreja, seduzindo-a para o humanismo, para colocar necessidades, desejos e planos humanos no centro de sua busca. Infelizmente, o pastoreio de famílias é uma das áreas mais afetadas, já que absorve o humanismo de uma psicologia desviada da teologia bíblica, contaminando a Igreja com opiniões seculares sem critério ou filtro. A inversão de prioridades é um exemplo desse mundanismo. Primeiro Deus – dizem, em um arremedo de espiritualidade; Depois a família – para uma conciliação humanista; por último a Igreja, como se fosse possível realizar essa ordem. Não é! Isso infringe os fundamentos de nosso conhecimento de Deus e é potencialmente destrutivo para a família e para a Igreja. Para corroborar essa afirmação, proponho os seguintes cinco argumentos.

Desconecta-se Deus do Corpo de Cristo. Quem sugere que Deus pode ser colocado em primeiro lugar e a Igreja em último, separa Deus do Corpo no qual pai, mãe e filhos são membros, junto com os membros de todas as outras famílias. Isso coloca a família além da instrução e da disciplina com a qual a Igreja pode servi-la. Para compensar essa deficiência, surge a ideia de que a família é uma igreja e logo as famílias estão livres para transitar entre igrejas que seriam, então, menos do que elas mesmas. É uma prática dissociativa e o que vemos são as famílias insubmissas à Igreja e até os membros divorciados entre diversas congregações, sem poderem beneficiar-se da saúde que há na integridade do Corpo de Cristo.

Desconecta-se Deus de suas ações. Dizer que é possível estar em comunhão prioritária com Deus sem colocar a missão de Deus como prioridade, aproxima-se da idolatria. Um deus que não fala, que não ouve, que não age é um ídolo. Quem está em comunhão com o verdadeiro Deus, está em comunhão com sua ação missional. É claro que nem todo o trabalho na Igreja é a obra de Deus, e as pessoas gastam muito tempo fazendo coisas para si mesmas. Contudo, a romântica ideia de ficar com a família ao invés de pregar o Evangelho encontra forte oposição em Cristo: "Quem ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim não é digno de mim; quem ama seu filho ou sua filha mais do que a mim não é digno de mim; e quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim.” Mt 10:37-38.

Ignora-se a natureza missional do casamento. Chama nossa atenção, na instituição do casamento, a expressão “Por essa razão” (Gn 2:24), que faz o casamento depender do contexto em que o homem deveria cumprir uma missão dada por Deus mas não podia fazê-lo sem ajuda. A mulher foi criada como auxiliadora, assim, o casamento é uma unidade dinâmica, existe dentro do contexto da missão divina. Tentar realizar o casamento como um idílio estático, uma romântica fotografia do casal em um eterno beijo ao pôr do sol é uma idiotice. O casamento, a família por extensão, existe quando o marido tem uma missão e a esposa está disposta a ajuda-lo. É trabalhando juntos que eles se completam, é funcionando para a glória de Deus que eles são casal e são família. É nesse contexto que a submissão da esposa é maravilhosa – ela estando submissa à mesma missão a que o marido se submete. Ao colocar a missão divina, expressa na Igreja, após a família, o casamento não se realiza conforme a vontade de Deus.

Ignora-se o cônjuge como membro do Corpo de Cristo. Muitas das equivocadas exposições sobre a prioridade da família sobre a missão divina têm o demérito de apresentar o cônjuge como um ser à parte, um elemento passivo, à espera de que o crente pare com o que está fazendo para dar-lhe atenção, evitando que desista do casamento. Se fosse assim, não seria por falta de carinho e atenção. O marido ou a mulher nessa condição, precisa mais de ouvir o Evangelho e se converter verdadeiramente, tornando-se parte do Corpo de Cristo para realizar a mais profunda e verdadeira união que uma família poderia ter: estarem unidos em Cristo. É por isso que Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, investido da autoridade apostólica, ensina: “... se um irmão tem mulher descrente... se uma mulher tem marido descrente... se o descrente separar-se, que se separe.” 1Co 7:12-15. Note como a relação de irmãos em Cristo se sobrepõe a de marido e mulher. A Igreja, a comunhão com o Corpo de Cristo é prioritária.

Transgride-se o conceito cristão de família. Eis o que Jesus disse quando sua mãe e irmãos procuravam impedir seu ministério a pretexto de que estaria prejudicando sua vida pessoal: "Aqui estão minha mãe e meus irmãos! Quem faz a vontade de Deus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe" Mc 3:34-35. Note-se que Jesus se referia exatamente ao trabalho missional, à existência como Igreja no sentido dos relacionamentos de discipulado que ele destacou como a verdadeira família, superior a uma família que não esteja fazendo a vontade de Deus. É uma postura bem diferente daqueles que, com boas intenções, mas de uma maneira mundana, querem propor que as relações familiares sejam superiores à missão divina da Igreja.


Não quero negar, no entanto, a importância da família e nem poderia. De fato, “Se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente.” 1Tm 5:8 (ainda que isso não se refere à esposa, mas à mãe viúva). O que quero, e insisto nisso, é que os crentes reconheçam que Deus, sua obra e sua Igreja não podem ser dissociados, nem secundarizados de alguma forma. Quero que os crentes entendam que a família, conforme Deus, existe no contexto comum da missão e da Igreja que a realiza. O esposo fazendo a vontade de Deus e a esposa auxiliando-o, essa é a unidade que a Bíblia propõe para a família. É nesse contexto que serão uma só carne e que poderão realizar o ideal de esposo e esposa, de pais e filhos, como membros do Corpo de Cristo: “...tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude.” Fp 2:2. Deixemos de lado o mundanismo e pensemos como Deus pensa.

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