21 de dez de 2014

Terminar a corrida

Série OQDQ?

“De Mileto, Paulo mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso. Quando chegaram, ele lhes disse:
‘Vocês sabem como vivi todo o tempo em que estive com vocês, desde o primeiro dia em que cheguei à província da Ásia. Servi ao Senhor com toda a humildade e com lágrimas, sendo severamente provado pelas conspirações dos judeus. Vocês sabem que não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa. Testifiquei, tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus.
Agora, compelido pelo Espírito, estou indo para Jerusalém, sem saber o que me acontecerá ali, senão que, em todas as cidades, o Espírito Santo me avisa que prisões e sofrimentos me esperam. Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus.
Agora sei que nenhum de vocês, entre os quais passei pregando o Reino, verá novamente a minha face. Portanto, eu lhes declaro hoje que estou inocente do sangue de todos. Pois não deixei de proclamar-lhes toda a vontade de Deus. Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue. Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos. Por isso, vigiem! Lembrem-se de que durante três anos jamais cessei de advertir a cada um de vocês disso, noite e dia, com lágrimas.” Atos 20:17-31

Quando terminamos uma etapa de nossa vida e temos que deixar para traz pessoas e projetos a que nos dedicamos tanto, enfrentamos grandes dificuldades, principalmente quando a etapa seguinte se mostra muito mais difícil e desafiadora. Há pessoas que têm horror a mudanças assim. Humanamente, todos sofremos em alguma medida com a urgência de desapegar-se, separar-se e caminhar para desafios ainda incertos. O texto que estamos examinando nos mostra um momento assim na vida de Paulo e podemos aprender com ele a lidar com as grandes mudanças em nossa vida.


Estou inocente do sangue de todos
(57 dC) Era o término da Terceira Viagem Missionária do apóstolo Paulo. Ele estava no porto de Mileto (oeste da Turquia), já viajando com pressa em direção a Jerusalém. De lá ele manda chamar os líderes da Igreja em Éfeso e lhes faz um discurso que vai do verso 18 ao verso 38. É um discurso de despedida em que o apóstolo Paulo avalia o passado, o presente e o futuro, tanto de seu próprio ministério como também da Igreja de Éfeso. A ordem do texto indica três segmentos nesse discurso: primeiro Paulo fala do que os líderes sabem por terem entendido; depois ele fala daquilo que ele próprio não sabe por não ter 'visto’ ainda e, finalmente fala daquilo que sabe, por já antever.



O que vocês sabem: a vida de Paulo era pública, de um modo ou de outro as pessoas formaram uma ideia sobre ele, a partir do que fez. Ao se tornar testemunha de Cristo, não somente o que Paulo pregava, mas sua própria vivência do Evangelho se evidenciou. “Vocês sabem como vivi todo o tempo em que estive com vocês, desde o primeiro dia em que cheguei à província da Ásia.” – Os líderes da Igreja em Éfeso chegaram a perceber o modo como Paulo vivia, porque o apóstolo ‘esteve com eles’ todo o tempo. Essa proximidade necessária no exercício do ministério é também uma exposição pessoal.  “Servi ao Senhor com toda a humildade e com lágrimas, sendo severamente provado pelas conspirações dos judeus.” – os líderes viram Paulo enfrentar lágrimas e sofrimentos por causa dos planos que os judeus faziam contra ele e perceberam que o apóstolo enfrentou isso porque agiu como um escravo, sentindo-se muito inferior ao Senhor. “Vocês sabem que não deixei de pregar-lhes nada que fosse proveitoso, mas ensinei-lhes tudo publicamente e de casa em casa.” – os líderes também viram o esforço de Paulo na evangelização e no ensino, pela amplitude (tudo) e pela qualidade (proveitoso) do conteúdo, bem como pela diversidade dos métodos (publicamente e de casa em casa). “Testifiquei, tanto a judeus como a gregos, que eles precisam converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus.” – ao resumir o conteúdo de sua mensagem, os líderes da Igreja em Éfeso puderam confirmar que sabiam o que Paulo pregava: a mensagem que experimentara (Testifiquei); a mensagem a toda criatura (tanto a judeus como a gregos); a mensagem de transformação conforme Deus pela fé no Senhor Jesus.

O que eu não sei: depois de avaliar sua conduta de conhecimento público até aquele momento, Paulo fala sobre o futuro. “Agora, compelido pelo Espírito, estou indo para Jerusalém, sem saber o que me acontecerá ali” – Paulo está, no sentido literal, ‘amarrado’ espiritualmente, levado como um escravo para Jerusalém, então não sabe o que vai lhe acontecer ali. “senão que, em todas as cidades, o Espírito Santo me avisa que prisões e sofrimentos me esperam.” – do mesmo modo como Paulo testificou aos judeus e aos gregos, agora o Espírito Santo testifica a ele. Embora, como escravo, ele não sabe de tudo o que lhe vai acontecer, o Espírito Santo lhe diz o que precisa saber. E como Paulo enfrenta esse não saber ou esse terrível pouco saber? “Todavia, não me importo, nem considero a minha vida de valor algum para mim mesmo, se tão-somente puder terminar a corrida e completar o ministério que o Senhor Jesus me confiou, de testemunhar do evangelho da graça de Deus.” – quando compara sua própria vida à sua vocação em Jesus, Paulo acha que o ministério é muito mais valioso; seu foco está na carreira, no ministério; ele lida com o superior Evangelho da Graça de Deus, isso é, a boa notícia de que Deus manifestou boa vontade para com as pessoas.

O que eu sei: a certeza que Paulo tem naquele momento é que as pessoas com quem passou tanto tempo não continuariam a vê-lo. É uma despedida e isso é certo, não pode ser evitado. “Agora sei que nenhum de vocês, entre os quais passei pregando o Reino, verá novamente a minha face.” – então como Paulo reage àquilo que sabe, com certeza. “Portanto, eu lhes declaro hoje que estou inocente do sangue de todos. Pois não deixei de proclamar-lhes toda a vontade de Deus.” – ele tem um coração livre de culpa, visto que fez o que o Senhor o chamou para fazer. “Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos” – ele crê que o Espírito Santo está cuidando da Igreja, como um pastor cuida de seu rebanho, colocando vigias ao redor dela. “para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” – ele crê que a Igreja pertence a Deus e ele cuida para que ela seja alimentada. Mesmo sabendo que a Igreja de que cuidou com tanto zêlo seria atacada, “Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. E dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair os discípulos.” – Paulo se acalma pelo fato de haver uma liderança ali para vigiar, “Por isso, vigiem!”, e por haver provido a Igreja do que é necessário para vencer,  “Lembrem-se de que durante três anos jamais cessei de advertir a cada um de vocês disso, noite e dia, com lágrimas”.


Pois não deixei de proclamar-lhes
O propósito de Lucas, autor de Atos, é mostrar como a Igreja do primeiro século estava cumprindo a missão dada por Cristo de testemunhar tanto em Jerusalém, Judéia, Samaria e até os confins da terra. Esse texto mostra Paulo voltando dos confins da terra, encerrando uma importante etapa de seu ministério e passando o bastão para uma nova geração de líderes que devem continuar seu trabalho. É o modo de Lucas começar o fim da primeira história da Igreja.

Nesse cenário, a figura do apóstolo Paulo despedindo-se das pessoas que ama, deixando a igreja que formou, avançando para o sofrimento, fica firme como modelo a ser imitado. É admirável ver como ele lida com situações e sentimentos tão difíceis para qualquer pessoa. Separação, entrega, novos riscos, não são coisas fáceis de enfrentar, mas no decorrer do texto vimos os recursos espirituais que o apóstolo Paulo reuniu para uma atitude irrepreensível, que faz lembrar o próprio Senhor Jesus, também viajando resoluto para o martírio em Jerusalém.

Antes de tudo, temos o caráter com que o apóstolo Paulo cumpriu seu ministério: como escravo consciente de sua inferioridade diante do Senhor, deixando-se levar amarrado, incapaz de escolher outra coisa que não fosse cumprir a vontade do Senhor. Para ele o cumprimento da vocação dada por Jesus, de testemunhar do Evangelho da Graça de Deus, era muito mais importante do que sua própria vida.

Como escravo de Cristo, Paulo pregou tudo o que era proveitoso. Testemunhou do Evangelho da Graça de Deus. Pregou o Reino, isto é, o governo absoluto de Deus em Cristo sobre tudo e todos. Proclamou toda a vontade de Deus. Falou a verdade, advertindo noite e dia e com lágrimas. Essa intensidade da pregação e do ensino traz grande sossego a Paulo: ele se sente livre de culpa do que possa acontecer aos discípulos dali em diante e crê que eles têm o necessário para superar quaisquer dificuldades.

Não pode passar desapercebido que, por onde quer que vá, em todas as cidades por onde passa, além da Palavra de Deus, Paulo sente a presença do Espírito Santo, guiando-o e lhe dizendo o que precisa saber (ainda que não tudo o que quisesse saber). Certamente essa presença santa o ajuda a enfrentar seu próprio futuro e também o da Igreja.

A vida somente servia para uma coisa: terminar a corrida e completar o serviço. A vocação, o chamado do Senhor Jesus tinha absoluta prioridade para Paulo. Anos depois, nas últimas semanas de sua vida, podemos ouvi-lo dizendo: “Combati o bom combate, terminei a corrida, guardei a fé.” 2Tm 4:7.

Ter sucessores preparados para continuar a obra também ajudava muito. Não há cargos formais aqui, apenas funções, apenas serviço. Os líderes da Igreja de Éfeso são primeiro referidos como ‘presbíteros’, isto é, anciãos, distinguidos por sua experiência de vida na fé e depois reconhecidos pelo apóstolo. São chamados de bispos, ou epíscopos, porque têm a responsabilidade de supervisionar o rebanho, cuidando e protegendo as ovelhas. Eles foram preparados por Paulo e têm tudo o que precisam para cumprir sua função na Igreja de Deus. Quanto ao maior perigo que devem enfrentar, são os lobos, pregadores que distorcem a verdade pregada para tomar para si as ovelhas.

Quanto à igreja, ela é chamada primeiro de ‘Igreja de Éfeso’, e isso, junto com a menção de como o Espírito Santo lhe avisava em ‘todas as cidades’ nos mostra a visão da Igreja na cidade. Não é uma visão particular da Igreja, mas de sua relação com as cidades que deve iluminar. A mesma igreja é logo chamada de rebanho, e essa figura é aplicada aos líderes como vigias e aos heréticos como lobos. Essa figura amplamente usada para Israel no Velho Testamento, indica que a Igreja é uma propriedade e deve seguir as instruções de seu possuidor. Por isso é também chamada de ‘Igreja de Deus’, pertencente a Ele porque foi comprada com seu próprio sangue. O conjunto dos crentes é ainda chamado de ‘os discípulos’ (v. 30) e mais adiante de ‘os que são santificados’ (v. 32).

Então, é nesta seção final do texto que Paulo releva o motivo de todos os motivos, o fundamento de sua admirável atitude em uma situação difícil: “Agora, eu os entrego a Deus e à palavra da sua graça, que pode edificá-los e dar-lhes herança entre todos os que são santificados.” At 20:32. Sendo apenas um escravo e sabendo que a Igreja de que cuidava fora comprada e pertencia a Deus, o apóstolo a entrega a quem pertence. E de que maneira faz isso? Para Paulo, entregar a Igreja a Deus é entrega-la à Palavra da Graça, essa Palavra que Deus deu à igreja por sua boa disposição para abençoá-la. Essa Palavra que Paulo tanto pregou, e que pode avançar mesmo sem seu escravo, tem o poder de edificar os crentes como casa espiritual e torna-los participantes da promessa de Deus para aqueles que se tornam exclusivamente dEle.


Cuidem de vocês mesmos
Que inspirativo esse momento tão difícil na vida de Paulo. A riqueza de quem ele era, do que a igreja era e, sobretudo, de quem Deus é, tanto para ele como para a Igreja, fazem com que uma situação difícil se torne sublime e nos inspire a oferecer um verdadeiro culto ao Senhor.

  • Adoração: a) adore ao Espírito Santo que nos acompanha por onde quer que vamos e nos prepara para o que precisamos enfrentar; b) adore a Deus que comprou a Igreja com seu próprio sangue; c) adore Jesus Cristo, nosso Senhor, que nos chamou para a carreira e para o ministério que está adiante de nós.
  • Confissão: a) avalie sua vida e confesse se você está pregando toda a Palavra de Deus; b) considere se está anunciando o Evangelho da Graça a todas as pessoas; c) verifique se está proclamando a Vontade de Deus em todos os lugares e situações e tome decisões que lhe levem a cumprir integralmente o seu chamado.
  • Gratidão: a) agradeça pela oportunidade de ser escravo e reconhecer sua pequenez diante da glória do Senhor; b) louve a Deus por proporcionar que você termine a carreira e complete o ministério; c) exalte a Deus pelos resultados que ele produz através de você, na vida da igreja e de outras pessoas.
  • Súplica: a) suplique ao Senhor por proteção para a Igreja dEle, diante de tantas heresias; b) clame a Deus pelos líderes da Igreja para que permaneçam firmes na Verdade; c) peça ao Senhor que a Palavra pregada continue a produzir seu poderoso efeito na vida da Igreja.
  • Dedicação: a) comprometa-se com a vocação de Cristo para a evangelização acima de qualquer outro interesse na vida; b) apresente sua vida ao Senhor para pregar o Evangelho da Graça, anunciando a boa vontade de Deus para reinar sobre a vida dos perdidos; dedique-se a proclamar toda a Vontade de Deus às pessoas que Ele entregou aos seus cuidados.

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