18 de abr de 2014

O indivíduo e a pessoa

Tempo de leitura: 9 minutos

Um grande prédio é um conjunto de tijolos devidamente bem organizados. Embora, ao desconstruir o prédio em tijolos independentes faça com que o prédio deixe de existir, cada tijolo ainda mantém sua função, e pode se tornar parte de qualquer outro prédio. Por isso podemos dizer que o tijolo é a unidade ou o indivíduo de uma construção. Sabemos que o tijolo é o indivíduo, porque ele não pode ser dividido sob pena de perder a sua função e não poder mais ser parte de outra construção. E a construção da sociedade? Qual você acha que é a unidade social? Na modernidade a pessoa foi assumindo o status de unidade, ao ponto de não questionamos mais que indivíduo e pessoa sejam sinônimos. Essa forma de ver o mundo, como uma construção formada de pessoas, parece normal e modela nossa forma de entender inclusive a liderança. Mas isso é verdade? Pense um pouco mais sobre isso.

Primeiro vamos definir o termo indivíduo: “adj (lat individuu) Que não se divide; indiviso. sm 1 Pessoa considerada isoladamente em relação a uma coletividade. 2 Sociol Ser biológico. 3 fam Homem indeterminado. 4 Homem reles, desprezível. 5 Pessoa. 6 Biol Organismo singular ou simples, capaz de existência independente. 7 Biol Membro de um organismo composto, ou colônia, por exemplo, um dos elementos distintos que constituem um hidrozoário composto. 8 Biol Qualquer uma das unidades funcionais ou fisiológicas conhecidas como biontes. 9 Ser particular de cada espécie. 10 Quím e Miner Corpo de composição constante.”[1]. Note que, nas várias aplicações do termo, é constante o sentido de unidade ou indivisibilidade. A ideia, portanto, é que a coletividade pode ser dividida continuamente até o nível da pessoa. Portanto, um corpo humano, com seus membros ligados por nervos e músculos, não pode ser dividido porque isso provocaria muito sofrimento, destruiria sua identidade, diminuiria sua capacidade funcional e colocaria em risco sua continuidade.

E o termo pessoa, como podemos defini-lo? “sf (lat persona) 1 Criatura humana; homem, mulher. 2 Personagem. 3 Individualidade.”[2]. Note como, desde o início, confundimos os termos pessoa e indivíduo em nossa língua. Em latim, de onde tomamos a palavra, persona refere-se à máscara usada por atores e, por extensão, o papel, a personagem, o caráter e a personalidade[3]. Se levarmos em conta a raiz da palavra, devemos aceitar que uma pessoa é distinguida por seu caráter, mas, nem por isso, está separada de outras pessoas, isso é, a pessoa não é necessariamente um indivíduo. Deixe-me ilustrar isso. Veja o querubim: “Quanto à aparência dos seus rostos, os quatro tinham rosto de homem, rosto de leão no lado direito, rosto de boi no lado esquerdo, e rosto de águia.” Ez 1:10. Ao descrever os seres mais próximos do trono de Deus, o profeta faz questão de explicar que eram quatro indivíduos, mas, cada um desses indivíduos tinham quatro faces, descritas como personagens ou personalidades diferentes, caracterizadas por homem, leão, boi e águia. Portanto, as quatro pessoas do querubim compunham apena um indivíduo. Vamos chamar esse indivíduo multi-pessoal de indivíduo social.

O conceito de indivíduo social aparece frequentemente nas Escrituras. Aqui vou tomar apenas o exemplo de Paulo na Segunda Carta aos Coríntios: “Porque, assim como o corpo é um, e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos, são um só corpo, assim é Cristo também.” 1 Co 12:12. Veja que, para ao apóstolo aos gentios, Cristo, ou a Igreja, é um indivíduo social, composto de várias pessoas que são os membros. Cada membro se distingue por: a) especialidade – sabe fazer bem alguma coisa; b) exclusividade – está dedicado somente à sua função; c) funcionalidade - é capaz de produzir resultados em sua função. Embora tão distintos, nenhum desses membros é um corpo sozinho. Eles não são indivíduos, mas membros especializados do indivíduo social. Note que Paulo reafirmou o mesmo conceito na família, estabelecido no princípio da criação, conforme a Palavra de Deus: “Por essa razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma só carne.” Gn 2:24. O casal é um indivíduo social. Homem e mulher são membros especializados desse indivíduo, distintos por sua especialidade, exclusividade e funcionalidade.

Talvez, até agora, tenhamos sido iludidos pela aparência física. Achamos que o indivíduo é a pessoa porque vemos o corpo todo conectado por nervos e músculos. Em tempos e wireless isso não deveria mais ser um problema. Hoje aceitamos que vários equipamentos, mesmo não estando ligados por fios, façam parte do mesmo indivíduo. Paulo já falou insistentemente sobre essa ligação invisível entre os membros especializados de um indivíduo social, como, por exemplo, em Efésios: “Façam todo o esforço para conservar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz. Há um só corpo e um só Espírito...” Ef 4:3-4. Veja como a ideia se repete: cada membro deve fazer todo o esforço para conservar a integridade do indivíduo social. Esse indivíduo tem seus membros integrados pelos nervos da paz, ou seja, do bom relacionamento. Como no corpo físico que serve de exemplo, os membros poderiam ser separados, mas isso provocaria muito sofrimento, destruiria sua identidade, diminuiria sua capacidade funcional e colocaria em risco sua continuidade.

Muitas sociedades ainda preservam graus de integridade superiores aos nossos, com cada pessoa percebendo-se como parte do ser coletivo. Infelizmente nós perdemos essa perspectiva e sofremos grande prejuízo com isso. Parece que a cultura das cidades têm uma parte nessa ilusão de individualidade, destruindo os elementos da integridade ao separar as pessoas e ainda valorizar essa separação. Horários, trânsito, espaço, atividades, nas grandes cidades todas essas coisas tornam mais difícil manter os vínculos da paz e o indivíduo social, família ou igreja, se deteriora rapidamente, afetando a existência também de cada membro.

Consideremos essa forma de ver o mundo: as pessoas como membros especializados de indivíduos sociais, a família e a igreja, ligadas pelos vínculos da paz gerada em Cristo, os quais devem se esforçar para manter. Isso afeta diretamente nosso estilo de liderança e a gestão. Primeiro, a liderança é exercida em submissão mútua: o líder não está acima das outras pessoas, nem as domina, ele está com elas sob a mesma missão determinada pela cabeça que é Cristo. Segundo, o líder não exerce liderança por ser o mais forte, o mais sabido ou o mais rico: na verdade, ele exerce a liderança servindo aos outros por ser o mais especializado na atividade a ser realizada. Terceiro, o líder não se perpetua na liderança: ele cede espaço alegremente para outros liderarem, na medida em que a demanda de liderança exige especialidades que não são as suas. Essa liderança verdadeira deve se afirmar na produção de resultados abundantes e conformes à vontade de Deus.

Jesus deixou claro que nosso modo de liderar seria muito diferente de como o mundo o faz: “Não será assim entre vocês.” Mc 10:43. Porém, se não mudarmos nosso modo de ver a nós mesmos, aos outros e ao mundo, não seremos capazes de mudarmos o nosso modo de liderar. Não é à toa que Romanos se refere justamente a essa concepção de indivíduo e pessoa: “Não se amoldem ao padrão deste mundo, mas transformem-se pela renovação da sua mente, para que sejam capazes de experimentar e comprovar a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” Rm 12:2.
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[1] http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=indiv%EDduo
[2] http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=pessoa
[3] http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.04.0059%3Aentry%3Dpersona

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