3 de dez de 2013

11. O perigo da alegorização

Aos pregadores da Palavra de Deus, maior e menor ministério dentre todos, alegria e paz. Temos sobre nós a tarefa fundamental da Igreja, que só cumprimos plenamente quando nos omitimos totalmente. Fale a Palavra de Deus e não nós.

Há algum tempo eu realizava uma campanha evangelística na Bahia e tinha uma noite livre. Quis, então, ouvir a Palavra de Deus e escolhi uma igreja reconhecida pelo zelo na preparação dos pastores e na pregação. Ouvi com interesse o pastor ler uma passagem do Antigo Testamento, mas me desapontei muito quando ele fechou a Bíblia e começou o sermão dizendo: 'vocês sabem que os desertos são lugares de aflição' - toda a mensagem se baseou nessa afirmação, sem que o texto nem de longe afirmasse ou sugerisse isso.

Ora, desertos, nas Escrituras, também são lugares de aprendizado, de comunhão, de refúgio e de transformação. Ao dar um significado que o texto não tem, o pregador modelou o texto conforme sua própria vontade, para dizer o que ele próprio queria. Desse modo o texto deixou de ser a Palavra de Deus para ser a palavra do pregador. Assim a pregação torna-se uma ilusão e fica sem poder para salvar. Esse é o perigo da alegorização: dar significados a elementos do texto que o próprio texto não dá.

Doutra feita ouvi um pregador atribuir ao joio, na parábola do trigo e do joio (Mt 13:24-30, 36-43), o significado de ensinos mundanos que se misturam na mente das crianças ao ensino cristão dos pais e da Igreja. Fiquei ali perplexo pensando em como o Senhor da Seara teria ordenado que esse 'ensino mundano' não fosse arrancado da mente das crianças. Essa é uma marca típica da alegorização: a incoerência.

Mais recentemente em um importante congresso, um pastor usou o testemunho de Eliseu, 'morte na panela’, para depois dizer: isso tem 'tudo a ver com o ministério de ensino'. Ele deu às ervas venenosas o significado de heresias que os ensinadores coletam e depois servem como alimento aos seus ouvintes. Embora tenha parecido sedutoramente coerente, essa alegorização não é consistente em explicar, por exemplo, como tirar a ‘morte’ do ensino. A inconsistência é outra marca da alegorização - ela não confere com a experiência.

Rogo a vocês que rejeitem a alegorização, que ofereçam o leite genuíno, sem mistura, para alimentar a Igreja de Cristo (1Pe 2:2). Peço que, como verdadeiros servos da Palavra (Lc 1:2), vocês se recusem a iludir sua audiência, antes imitem a Jesus, dizendo somente e tudo o que ouvirem do Pai através das Escrituras (Jo 15:15). É assim que ouviremos a Palavra de Deus através de vocês, mas, na alegorização ouviríamos a sua própria palavra.

Santifiquem sua pregação, para que a Palavra de Deus continue gerando fé para salvação.

José Bernardo.

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