16 de jul de 2017

Liderança bíblica

Aprendi que há uma diferença intransponível entre o que o mundo pensa sobre liderança e o que é liderança conforme a Palavra de Deus. Infelizmente a Igreja tem falhado na formação de líderes. O mais comum é que, depois de fazer sucesso conforme o mundo e assumir posições de liderança na academia ou no mercado, as pessoas sejam convidadas a assumir alguma posição de liderança na Igreja.

Gabriel J. M. Augustin Ferrier, David victorious over Goliath - 1876 (detalhe)


Alegria perene

Aprendi que é solitária e injusta a espera pela felicidade. “Alegrem-se sempre no Senhor” Fp 4:4, esse é um mandamento para, antes de tudo, nos libertarmos da escravidão de nossos desejos. Alegrar-se assim, é não depender de qualquer outra coisa para a nossa alegria que não seja o próprio Senhor. É um chamado para encontrarmos nele tudo o que precisamos para a nossa felicidade e alegria. Quando estabelecemos condições materiais para sermos felizes, nos condenamos a viver fora da liberdade que Deus conquistou para nós. 

Anna Razumovskaya, Morning Joy Painting

Falar é fazer

Aprendi que evangelizar é agir pela proclamação da Palavra, exatamente como Deus fez. Pela Palavra Deus criou tudo o que existe; a Bíblia é suficiente. Sabemos que, pela Palavra de Deus o universo foi formado (Hb 11:3). Como qualquer outra atividade seria ainda superior à proclamação da Palavra de Deus? É o conhecimento da Verdade que traz liberdade verdadeira e integral. Foi isso o que Jesus disse: "Se vocês permanecerem firmes na minha palavra, verdadeiramente serão meus discípulos. E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará" Jo 8:31,32.

Duccio di Buoninsegna, Appearance on the Mountain in Galilee (detalhe)
1308 a 1311


Medo

José Bernardo

Aprendi que o medo pode ser vital. Estamos habituados a ver o medo como um sentimento negativo, tanto que, quando queremos apresenta-lo positivamente, procuramos outras palavras para nos referirmos a esse sentimento. Temor, reverência ou prudência são palavras usadas quando originalmente o termo é simplesmente medo. 

The Storm on the Sea of Galilee, Rembrandt van Rijn (Detalhe)

Positiva

José Bernardo

Aprendi que a Palavra de Deus é positiva. Embora a religiosidade seja perversamente construída sobre o ‘não’, a vontade de Deus se manifesta sobre o ‘sim’. Deus prefere apontar o que é melhor para sermos, termos, fazermos e estarmos. Infelizmente as pessoas se concentram nas restrições e proibições e isso dificulta sua compreensão de qual é a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. É possível que essa tendência negativa seja determinada pela pressão da própria vontade carnal, que é contrária a Deus. 


Vontade

José Bernardo

Aprendi que Deus é absolutamente soberano em sua vontade. Muito frequentemente os crentes têm orado como se a vontade de Deus fosse se realizar a partir do momento em que se rendem a ela. Agem como se Deus precisasse da permissão dos homens, como se o Todo Poderoso esperasse pela concordância de sua vontade para então agir. Depois de 42 capítulos das mais contundentes divergências filosóficas, teológicas e vivenciais, a conclusão de Jó é essa: “Sei que podes fazer todas as coisas; nenhum dos teus planos pode ser frustrado” Jó 42:2. 

Jesus in his kingly glory, Danny Hahlbohm (detalhe)

Segredo

José Bernardo

Aprendi que os segredos são ruins mesmo quando parecem bons. Parecem haver muitas razões para manter segredos. Na medida que a vida urbana divide as pessoas em cubículos cada vez menores, elas têm uma vida mais reservada, estando, fazendo, tendo e sendo coisas que os outros não sabem. Guardam segredo por medo do julgamento alheio, pela vergonha de escolhas incomuns, pelo receio da violência e do esbulho, pela necessidade de sentir-se especial e, sobretudo, por um raro senso de poder uma realidade de absoluta massificação. 

Elsa Mora, The secret (detalhe)

7 de jul de 2017

Jesus e as crianças

José Bernardo

Alguns traziam crianças a Jesus para que ele tocasse nelas, mas os discípulos os repreendiam.
Quando Jesus viu isso, ficou indignado e lhes disse: "Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam; pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas. Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele".
Em seguida, tomou as crianças nos braços, impôs-lhes as mãos e as abençoou.
Marcos 10:13-16

O texto a que nos propomos estudar aqui tem uma importância definitiva para a missiologia. A indignação de Jesus prenuncia isso, como também sua declaração: “pois o Reino de Deus pertence aos que são semelhantes a elas”. Essa frase define um público ou uma condição prioritária para a evangelização. Outro fator que indica a importância do texto é que três Evangelhos trazem esse relato: Mateus 19:13-15; Marcos 10:13-16; Lucas 18:15-17. Por outro lado, poucas passagens bíblicas tem sido alvo de tanta má interpretação, isso devido a preconceitos e precipitações na compreensão do texto. Essas más interpretações têm trazido graves problemas e desvios para a evangelização, por isso convido você a retornar comigo a esse texto e analisa-lo com mais cuidado.


[V] Traziam crianças a Jesus
Mateus e Marcos situam Jesus ensinando na Judeia, ‘do outro lado do Jordão’. Durante esse ensino, as pessoas começaram a trazer crianças para que Jesus as abençoasse. Os discípulos repreendiam as pessoas e o tom do relato é de que eles faziam isso achando que era a coisa certa a fazer. Jesus, porém, ficou indignado e lhes disse para não impedirem as crianças. O termo que Jesus usou parece ter sido bem severo. Impedir aqui pode derivar de um verbo que significa punir de modo a incapacitar, então, ‘não incapacitem as crianças’.

Porque Jesus distinguiu as crianças? "Deixem vir a mim as crianças, não as impeçam” – aqui, o preconceito cultural de que as crianças são puras ou inocentes tem feito maior dano. O contexto não revela inicialmente a razão da distinção, mas a etimologia é bastante clara. Infelizmente a raiz do termo criança em português é bastante diferente, por isso o mal-entendido. O gr. paidion usado por Jesus, inclusive por Lucas que antes usa outra palavra, representa a criança sob estrita vigilância e treinamento (daí a palavra pedagogia no português). É muito provável que o termo derive do gr. paió, que significa corrigir. Portanto, a ideia que se destaca é a de alguém que está sendo corrigido, que é ensinável e moldável.

Como Jesus relacionou o Reino de Deus às crianças? “...o Reino de Deus pertence...” – o uso do termo ‘pertence’, como se indicasse propriedade, tem causado outro enorme problema de interpretação. A palavra assim traduzida é o gr. eimi, verbo que significa ser, existir. Portanto, o Reino é de Deus (Mateus escrevendo aos judeus limita o uso do nome de Deus e prefere ‘dos céus’). O Reino é gerado por Deus, pertence a ele e a ninguém mais. Mas esse Reino, que é de Deus, ‘existe’ ou ‘é’ para as crianças e para os que são semelhantes a elas. Portanto, o Reino que é de Deus, existe para aqueles que são corrigíveis ou ensináveis.

O que significa o Reino de Deus? “...pois o Reino de Deus...” – aqui tem imperado o preconceito que sintetiza a salvação e as riquezas divinas sob a epígrafe do Reino, fazendo com que muita gente conclua que as crianças já têm salvação assegurada por sua suposta inocência. Isso se opõe claramente ao fato de que as crianças são geradas em pecado e carecem da salvação que somente se encontra em Jesus Cristo, pela fé. O fato é que Reino de Deus significa ‘governo de Deus’, ou seja, o governo de Deus existe para aqueles que são corrigíveis, ou ainda, Deus só governa aqueles que se deixam corrigir, as crianças e aqueles que são semelhantes a elas.

A que grupo de pessoas Jesus se referiu? “...aos que são semelhantes a elas” – Jesus não limitou o governo de Deus às crianças. Ele as incluiu, mas não exclusivamente. Nos três evangelhos Jesus mostrou que se referia a todas as pessoas que, semelhantemente às crianças, podem ser educadas, ensinadas, moldadas ou corrigidas. Em Marcos e Lucas essa verdade é ainda enfatizada pelo relato da seguinte afirmação: “Digo-lhes a verdade: Quem não receber o Reino de Deus como uma criança, nunca entrará nele".

O fundamento desse texto é muito semelhante ao que lemos em Provérbios: “Instrua a criança segundo os objetivos que você tem para ela, e mesmo com o passar dos anos não se desviará deles” Pv 22:6. A criança é moldável, ensinável, mas o adulto não. Seus comportamentos se cristalizam e ele permanece na posição a que chegou. A profunda mudança de vida que a conversão representa, exige um espírito moldável, como o de uma criança.


[O] Aos que são semelhantes a elas
A intenção primária de Jesus foi que as crianças pudessem chegar até ele. Mas o Senhor utilizou o evento em questão para estabelecer um ensino que define o público para o qual o Reino de Deus existe. Esse ensino exigiu de seus ouvintes e exige dos leitores posteriores uma cuidadosa avaliação de seu próprio caráter.

No que se refere a deixar as crianças virem a Jesus, percebemos a inclusão delas. As crianças precisam chegar a Jesus para que ele as abençoe, isto é, diga boas coisas sobre elas. Lucas corrobora essa ideia dizendo: “Mas Jesus chamou a si as crianças” Lc 18:16.  Além disso as crianças foram trazidas pelos adultos, que insistiram nisso apesar de terem sido repreendidos. Jesus também deu duas instruções aos seus discípulos: primeiro, para permitirem, liberarem, facilitarem para as crianças chegarem a ele; segundo, para não impedirem, ou seja, não dificultarem, não agirem de tal forma que as crianças ficassem impossibilitadas de atender ao chamado de Jesus.

Sobre a avaliação que cabe a cada crente fazer, é se mantém-se como uma criança que pode ser corrigida, ensinada, moldada. Esse espírito ensinável é requerido por Deus em muitos momentos, sendo um muito sublime aquele em que Jeremias é mandado descer à casa do oleiro: "’Ó comunidade de Israel, será que não posso eu agir com vocês como fez o oleiro?’, pergunta o Senhor. ‘Como barro nas mãos do oleiro, assim são vocês nas minhas mãos, ó comunidade de Israel’” Jr 18:6. Então, nossa oração deve ser aquela de Davi no Salmo 51, por um coração contrito, um espírito quebrantado, livre da dureza que impediria nosso acesso ao governo de Deus sobre a nossa vida.


[S] Impôs-lhes as mãos e as abençoou
Considerando o texto que examinamos, bem como sua intenção, como devemos nos sentir diante disso? Que profundos desejos deve provocar em nosso coração?

Antes de tudo, devemos abrir mão de toda a dureza, de nossas opiniões, intenções e planos, para estarmos à completa disposição de Deus, para fazer tudo o que ele quer, como ele quer. Agora mesmo, que coisas você resolveu, das quais precisa abrir mão, para fazer o que Deus quer?

Devemos cuidar de nossa missiologia para alcançar preferencialmente as crianças, os adolescentes, os jovens, enquanto ainda têm um cérebro maleável, um desejo influenciável. Precisamos alcançar as pessoas enquanto elas ainda estão abertas à mudança. Então, que posturas, procedimentos e atividades é preciso mudar em seu ministério e igreja para priorizar a evangelização dos mais jovens?

É necessário também compartilhar a correta compreensão e interpretação desse texto, visto que as más interpretações que se fazem dele estão criando muita confusão e desvio do propósito missionário da Igreja. Quando você compartilhará a correta compreensão e interpretação desse texto com o grupo do qual você participa?

Finalmente, devemos nos animar a multiplicar a pregação do verdadeiro Evangelho do Reino de Deus, esse em que Deus reina em Cristo soberanamente sobre nós. A boa notícia que temos para o mundo é que Deus em Cristo deseja governar as vidas daqueles que ainda caminham sem controle para a destruição. Faça uma avaliação da boa notícia (evangelho) que você tem dado às pessoas: é o Evangelho do Reino de Deus?



30 de mai de 2017

Haeresis I

José Bernardo

“Esforcem-se para viver em paz com todos e para serem santos; sem santidade ninguém verá o Senhor” Hb 12:14

O versículo acima foi citado por um certo professor de conhecida escola teológica para justificar sua vaidade ao aceitar o convite de um muçulmano, para falar sobre ‘religião e cultura de paz’, ao lado de um rabino, em uma escola católica. O problema é, primeiro, que ‘cultura de paz’ é um conceito humanista, mais distante da verdade bíblica impossível. Segundo, a cultura de paz é um ‘Cavalo de Troia’ que mina a fé e consequentemente a esperança e o amor dos cristãos. Terceiro, a compreensão e a interpretação do versículo citado opõem-se diretamente à ideia que o dito professor tentava justificar e confirma os dois primeiros problemas. Não responderei a tolos, simplesmente já não os ouvirei. Mas, a quem tem ouvidos, eis aqui está a Palavra de Deus.

O contexto é o do capítulo 12, dedicado à valorização da disciplina pessoal sob a graça. Depois de chamar seus leitores a fazerem cominhos retos para si, o autor descreve esses caminhos começando por comandar uma intensa busca da paz, tanto como se fosse necessário caçá-la. A raiz do termo para paz, gr. eirene, é unir ou amarrar itens juntos para formar um todo. Portanto, ter paz com alguém é se tornar um só com a outra pessoa. Também, o texto diz ‘com todos’, e o termo usado aqui, gr. panta, significa cada um de todos, então, apesar de poder se referir a cada um dos membros do Corpo de Cristo, mesmo que significasse algo próximo de ter paz  com pessoas de outras religiões, isso ainda é moderado por dois filtros: serem santos e verem o Senhor.

O termo traduzido como ‘santos’ nesse versículo tem como raiz o conceito de ‘ser diferente’. ‘Santo’ é o processo pelo qual alguém se torna diferente do mundo, assim, o chamado ao reto caminho da paz, do unir-se e tornar-se um com outras pessoas, só é possível quando elas são iguais. Não é possível se unir dessa forma quando se é diferente em crenças, valores, planos e atitudes. Seria um jugo desigual e somos firmemente exortados a não nos unirmos nem nos associarmos a ninguém nessas condições.

19 de abr de 2017

Urbanização e crise missional

Por José Bernardo

No meio rural, em pequenas comunidades, o senso de coletividade predomina. Independentemente da religião, a fé é coletiva, as pessoas creem na mesma coisa e a crença de uma confirma a crença da outra. Tendo a mesma fé, as pessoas têm a mesma esperança, esperam pelas mesmas coisas, têm as mesmas aspirações, os mesmos desejos e sonham com as mesmas coisas. Tendo a mesma esperança, as pessoas trabalham juntas para alcança-la, cooperando umas com as outras em abundantes atitudes favoráveis aos outros. Quando as pessoas mudam para grandes cidades e passam a conviver com outras de diferentes fé, esperança e amor, sofrem crises em cada uma dessas virtudes. A vida na cidade desvirtua as pessoas e desagrega as comunidades.

A primeira crise a se instalar é a crise de fé. Para conviver com pessoas que creem em coisas divergentes e até opostas, é preciso tolerar suas ideias, supondo que todos, de alguma forma estão certos. Ao fazer isso, aceita-se intimamente que todos estão errados e negando-se a própria fé. 

A segunda crise é a de esperança. Não sabendo em que crer, não se sabe o que esperar. Os esforços se voltam para o presente, as aspirações diminuem e mergulha-se na desesperada busca por sensações físicas para, em vão, tentar substituir a falta do sonho, de propósito e objetivos. 

Não sabendo o que esperar, vivendo sem propósito e objetivos, dedicando-se apenas às sensações, a atitude se limita egocentricamente, egoisticamente. A cooperação, gentileza e amizade desaparecem ou são substituídas por relações formais, ditadas socialmente. Essa é a terceira crise, a crise de amor.

Tais crises afetaram a Igreja. Chegamos a uma situação em que os crentes não vivem a fé cristã como verdade absoluta, sua esperança pelo céu diminuiu (como também o horror ao inferno), portanto, sua atitude evangelística enfraqueceu. Os crentes não esperam um galardão para uma vida frutífera na terra, não vivem na esperança de encontrar-se com Jesus, não se angustiam com a ameaça do inferno às pessoas com quem convivem, e nem estão tão ligados a elas para se importarem com seu destino eterno. É por isso que a evangelização se tornou uma atividade incompreensível para o crente pós-moderno.

Nas grandes cidades do Império Romano, em uma situação de pós-modernidade, o apóstolo tanto enfrentou essa tríplice crise de fé, esperança e amor, como frequentemente ministrou sobre esse tema, procurando restaurar cada um desses elementos e devolver aos crentes uma vida espiritual significativa e um relacionamento verdadeiro com Deus.

.........................................

José Bernardo é pastor, pesquisador, escritor e conferencista. Fundou e preside a agência missionária AMME evangelizar, é vice-presidente da OneHope, agência internacional de distribuição da Bíblia e catalizador do movimento Visão 2030 para a evangelização global.