7 de jan. de 2020

A bússola

José Bernardo.

Uma enorme pressão mundana tenta redefinir a missão da Igreja. Há cinco décadas, nenhum crente teria dificuldade em dizer qual é a missão da igreja e a sua própria. Hoje, perguntar isso inicia um grande debate. As ideias humanistas que nasceram nas fissuras deixadas pela Reforma Protestante e pelo Evangelicalismo, escaparam totalmente à fé e encontraram o socialismo. A ideia da promoção humana encontrou terreno forte na massa moldável dos pobres, particularmente na América Latina. Às vezes motivada pelo antiamericanismo, a Igreja do Terceiro-mundo levou tais ideias como teologia missional para eventos mundiais e fisgou a igreja decadente do Primeiro-mundo.

Em Berlim 1966, Billy Graham, repetindo o pensamento evangélico disse, “Estou convencido de que, se a igreja voltasse à sua tarefa primordial de proclamar o evangelho e converter pessoas a Cristo, ela teria um impacto muito maior nas necessidades... dos homens...”. Em Lausanne 1974, John Stott, refletindo a contaminação da teologia latino-america pelas ideias marxistas, disse “Agora vejo mais claramente que não apenas as consequências da comissão, mas a comissão em si, precisam ser entendidas no sentido de incluir a responsabilidade tanto social quanto evangelística...”. Em uma década a missão da igreja foi completamente deformada pela filosofia e ciências sociais.

Em um vídeo disponível no YouTube, de uma palestra sobre Missão Integral de 2010, o brasileiro Ed René Kivitz revela a luz que iluminou sua experiência pessoal na redefinição da missão da Igreja, “... uma luz foi acesa e me deu um norte, que a teologia deveria ser feita, não apenas com a ferramenta da filosofia, para responder ao vazio de sentido da Europa, por exemplo, mas a teologia deveria ser feita com a ferramenta das ciências sociais, para responder ao sofrimento, especialmente nos países do Terceiro Mundo, e mais propriamente na América Latina”. A teologia à luz do pluralismo.

A Igreja deixou de ouvir a Palavra de Deus para seguir as vozes do mundo que declara ‘O homem é o deus do homem’ (Feuerbach). A missão define a ação, então, a igreja que se diverte de sua missão bíblica, não encontra o caminho e nem o destino. Por isso devemos continuar chamando a Igreja Brasileira de volta ao primeiro amor e às obras prioritárias (Ap 2:4,5). Nossa missão, por qualquer ângulo bíblico, se define pela Grande Comissão de proclamar o Evangelho do Reino, que Deus em Cristo quer governar aqueles que se voltarem para ele. Essa é nossa bússola!

5 de jan. de 2020

Fé, esperança e amor

José Bernardo.

Fé, esperança e amor são palavras extremamente usuais no cotidiano, mesmo fora da igreja, de tal modo que não é seguro assumir que o significado seja o mesmo que Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, lhes deu quando disse: “Assim, permanecem agora estes três: a fé, a esperança e o amor. O maior deles, porém, é o amor” 1Co 13:13. Na última linha do capítulo anterior, Paulo se propôs a mostrar um caminho mais excelente para a espiritualidade coletiva da igreja em Corinto. Era um contexto pós-moderno, semelhante ao nosso, onde cada pessoa pensava em si, por e para si apenas.

O prazer carnal e a luta por status eram a tônica entre aqueles crentes. O caminho mais excelente é o amor, e entender isso poderia ajudar as pessoas na mesma situação hoje. Mas, em um mundo que até confunde amor com sexo, como resgatar o poderoso ensino do apóstolo? Antes de tudo notamos que Paulo descreveu mudanças entre um estado original e uma situação futura. Então começou o versículo 13 com um advérbio que significa ‘exatamente agora’. Portanto, estamos no estado original onde permanecem fé, esperança e amor. No estado futuro, porque é mais largo ou extenso, teremos o amor.

Depois é necessário entender que as três virtudes formam uma unidade de partes conectadas. Primeiro, a fé que não pode ser confundida com pensamento positivo, crendice ou doutrina. Fé poderia ser mais bem traduzida por convicção, visto que é o resultado de um processo de conhecimento. Segundo, a esperança que não é espera de algo que não sabe se virá, mas por do que tem certeza da vinda, portanto expectativa. Terceiro, o amor que não é sentimento ou desejo, mas a preferência ou escolha entre diversos objetos. Finalmente, Paulo não diz que os crentes obterão essas três virtudes por esforço.

O caminho mais excelente está no contexto dos dons espirituais. Sobre eles, o Apóstolo Paulo disse: “... é o mesmo Deus quem efetua tudo em todos. A cada um, porém, é dada a manifestação do Espírito, visando ao bem comum” 1Co 12:6,7. É Deus quem infunde em nós convicção, expectativa e preferência e sem essas coisas não estamos vivendo a vida cristã. Infelizmente, a Geração Z nega a convicção pela tolerância, perde a expectativa pelo imediatismo e é incapaz de preferir porque não sabe escolher. Sem convicção não tem expectativa, e sem expectativa não tem preferência; resta prazer e status.

Existe uma saída

José Bernardo.

A pós-modernidade, era em que nasceu a Geração Z, se caracteriza pela desconexão da história. Com a desilusão da exatidão científica proposta pela modernidade, as pessoas passaram a buscar a verdade em suas próprias necessidades, desejos e projetos. Deixaram de se situar na Grande História e se referem prioritariamente ao que sentem. Além disso, do início da adolescência e até o final da juventude, o cérebro se distingue pela insuficiência de memórias e baixa velocidade na projeção do futuro. Culturalmente isolados dos adultos que poderiam supri-los, adolescente e jovens ficaram sem passado e sem futuro, prisioneiros de um presente infinitivo.

Nesse tempo, as pessoas têm a esperança minimizada: não sabem e não querem esperar por coisa alguma. Por isso agravam-se com as doenças modernas: ansiedade, depressão, angústia, medo, egodistonias e uma baixíssima resiliência. A isso seguem os pensamentos suicidas, a automutilação, o hikikomori. Esse é o alto preço do individualismo e adolescentes em conflito com sua identidade sexual, ou os que são alvos de bullying, estão entre os mais vulneráveis. Mesmo quando se tenta dizer-lhes que as coisas podem melhorar, não existe um conjunto de convicções básicas sobre o qual se possa construir tal esperança, então tornam-se escravos de micronarrativas.

Incontáveis filmes, animes, contos e minisséries narram as estórias de adolescentes sofridos, que descobrem superpoderes para superar limites e viver como desejam. Essa ilusão monumental é sintoma e placebo da desesperança como enfermidade social. Quando Jesus esteve aflito, angustiado, profunda e mortalmente triste (Mc 14:33,34), ele não procurou uma ficção de superação. Podendo fazer qualquer coisa, Jesus orou durante três horas a oração cujos elementos poderiam libertar qualquer jovem na mesma situação: “E dizia: ‘Aba, Pai, tudo te é possível. Afasta de mim este cálice; contudo, não seja o que eu quero, mas sim o que tu queres’” Mc 14:36.

É possível identificar cinco elementos curativos nessa oração de 30 segundos, que Jesus pode ter repetido por mais de 300 vezes: relacionamento, horizontal, porque Jesus estava entre os discípulos, e vertical, porque ele reconhece Deus como Pai; conhecimento, porque ele sabia do que o Pai é capaz; dependência, em que ele aceitou que não podia resolver o assunto por si só; abnegação, quando pediu que não fosse feita a própria vontade; submissão, ao pedir que se fizesse a vontade do Pai. Depois de insistir nessa oração, Jesus se levantou renovado, enfrentou e venceu toda a violência física, emocional e espiritual.

Eleva-te

José Bernardo.

Muitos teóricos conjugaram as três escolas vienenses de psicanálise para descrever a vontade com que o ser humano procura a vida: a vontade de prazer de Freud, a vontade de poder de Adler e a vontade de significado de Frankl. Este último descreveria o composto pelo viés da decadência. Para ele, o ótimo está no nível espiritual, onde busca-se o significado, sentido ou missão de vida. Deteriorando-se, viria o nível anímico da busca pelo poder, da sobrevivência e, de certo modo, da necessidade de status. Caindo ainda, o ser humano entraria no nível carnal, onde está a fome pelo prazer.

O grande problema com estas visões do ser humano é que elas consideram a pessoa como indivíduo, em quem a busca do prazer, status ou propósito acontece isoladamente, em interação apenas social. Não fosse por isso, a leitura da decadência conforme Frankl estaria muito próxima do que a Bíblia descreve sobre o novo homem, criado para ser semelhante a Deus em justiça e santidade, e o velho homem que se corrompe por desejos enganosos (Ef 4:22-24). Em todo esse processo de queda e possível restauração, temos o vício, processo cíclico pelo qual o cérebro aprende e exige repetir experiências compensadoras.

Detectamos o vício no nível inferior da carne, conectado à sensação física de prazer. Mas, nas obsessões ele pode estar no nível da alma, na busca pelo status ou superação. A via de escape de qualquer ciclo vicioso é a sublimação, a elevação pessoal ao nível espiritual. Duas condições são necessárias para isso. Primeiro, é preciso conectar a pessoa a um corpo social sadio como membro funcional – a santificação é coletiva. Depois, a pessoa deve encarnar a missão desse corpo. Sendo parte do Corpo de Cristo e vivendo para o propósito da vontade de Deus quebra-se o ciclo vicioso individualista.

Crentes que ainda mantém vícios carnais de comportamento como pornografia, masturbação, glutonaria e hipocondria, ou vícios anímicos como egodistonias, bulimia e automutilação, podem não ter experimentado plenamente a inserção curativa e missional no Corpo de Cristo, através da confissão, perdão, conversão e ministério; “Dele todo o corpo, ajustado e unido pelo auxílio de todas as juntas, cresce e edifica-se a si mesmo em amor, na medida em que cada parte realiza a sua função” Ef 4:16. A superação da ilusão de individualismo, o esquema desse mundo (Rm 12:2), é condição para libertar-se dos vícios e experimentar a vontade de Deus.

Inteligência

José Bernardo.

O termo inteligência, no latim, significa ‘entre ler’, escolher. Ser inteligente não é ter acesso a grandes quantidades de dados, como tem a geração Z, nem é ser capaz de decodificar tais dados em informações, o que é mais difícil, nem conhecer o valor das informações, o que é quase impossível atualmente. A inteligência se define pela aplicação efetiva do conhecimento, na produção de resultados. A web inaugurou uma era de acesso a tantos dados que precisamos invocar novas medidas. Falamos em yottabytes, o que nos levaria a quintilhões de livros, contudo há menos fé, falta esperança e mendiga-se amor.

Para transformar dados em informação é necessário dominar o código do registro. Quem não quer ler não obtém informação de registros escritos. No nível seguinte, para obter conhecimento, é necessário julgar a informação usando um padrão, se ela é verdadeira ou falsa, por exemplo. Aqui a Geração Z foi traída, pois necessidades, desejos e projetos pessoais não formam um padrão. Não é possível julgar se algo é certo ou errado olhando para nós mesmos somente. Ainda mais difícil é obter sabedoria, pois é necessário ter um propósito para aplicar o conhecimento, algo impossível quando se busca apenas prazer e status.

Um barco no meio do oceano estará perdido se não souber de onde veio e para onde vai. Assim são as pessoas que se desconectam das referências externas para se concentrar apenas em si mesmas. Tornam-se incapazes para o conhecimento e para a sabedoria. Lidando com pessoas nessa situação, o apóstolo Paulo ofereceu aos coríntios três critérios para transformar informação em conhecimento e conhecimento em sabedoria: adoração (1Co 10:31,32); comunhão (1Co 10:23,24); vocação (1Co 10:33,11:1). Adorar a Deus, ajudar quem está próximo e cumprir nossa missão, são critérios do padrão que nos permite fazer melhor escolha* e obter bons resultados.

4 de jan. de 2020

Fé é ciência

José Bernardo.

A discussão entre fé e ciência, demanda da resistência cristã à secularização, enfrenta como desafio primário a definição de ciência. A práxis científica e a Filosofia da Ciência são mãe e sogra dos cientistas. A sogra se moveu da tentativa de idealizar o método científico para finalmente descrever o que fazem seus genros cientistas. Coincidindo com o trânsito entre modernidade e pós-modernidade, a ciência veio do indutivismo da observação factual de Bacon, passando pelos dedutivismos de Popper e Chalmers no início da pós-modernidade, para chegar à complexidade dos programas de Lakatos e à anarquia de Feyerabend no final do milênio.

A fé não ajuda aqui. Longe da definição bíblica, o que se chama de fé, nesse debate, é a mimética Teologia Sistemática, concebida nos moldes baconianos. Essa rinha de fantasmas não oferece solução: de um lado temos a anarquia progressiva da ciência e, de outro, o anacronismo impostor da teologia. Se partirmos do mínimo conciliável, a etimologia do substantivo Lt. scientia, do verbo scire, conhecer, repetido 109 vezes nos livros canônicos da Vulgata, temos que a fé é essencialmente conhecimento, e se coloca muito acima da ciência: “... compreender... e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento” Ef 3:19. 

A Bíblia afirma que o pensamento humano é enganoso, incapaz de formular hipóteses e teses razoáveis (Jr 17:9); ensina que a observação empírica não é suficiente para refutar ou confirmar qualquer tese (Hb 11:3); define como mentiroso o conhecimento que o homem produz (Rm 3:4). Se falamos de conhecimento da verdade, a Bíblia chama para a fé essa capacidade, não para a ciência. Então, adolescentes e jovens cristãos deveriam ser desestimulados de estudar e buscar conhecimento humano? De maneira alguma! “O temor do Senhor é o princípio do conhecimento, mas os insensatos desprezam a sabedoria e a disciplina” Pv 1:7.

O conhecimento é evidência do temor a Deus. Mas por que buscaríamos conhecimento humano se é essencialmente mentiroso? Faremos isso pela razão mais científica possível, para refutar ou confirmar o que dizem aqueles que não conhecem a verdade. Essa é nossa missão, que “mediante a igreja, a multiforme sabedoria de Deus se tornasse conhecida” Ef 3:10. O temor do Senhor nos permite julgar o conhecimento humano, “... quem é espiritual discerne todas as coisas” 1Co 2:15. Tendo a mente de Cristo, estando em nós o Espírito Santo, teremos sabedoria e inteligência para conhecer toda a cultura e ciência (Dn 1:17).

Dedicação integral

José Bernardo

A dedicação completa ao ministério diminui rapidamente. Pastores questionam se é melhor serem bivocacionados e muitos crentes se orgulham de que eles trabalhem secularmente e tenham reduzido tempo para estudar a Bíblia e preparar suas mensagens, meditar e orar, discipular, visitar e planejar a evangelização. Missionários, por sua vez, são estimulados a tornarem-se fazedores de tendas, concentrarem-se em gerir atividades lucrativas, ou até a substituir missões por negócios em business as mission, isso ao invés de se empenharem na evangelização. Não faltam desculpas e justificativas para esse desvio e as vocações bíblicas são influenciadas negativamente, rareando em quantidade e integridade.

É o efeito da influência mundana. Em sociedades pós-cristãs, onde a fé não afeta mais o pensamento e a conduta, o humanismo determina, como única razão possível para a Igreja existir, que satisfaça as necessidades, desejos e projetos humanos. Sendo esse antropocentrismo o oposto da natureza da Igreja, ao ser relevante para o mundo, ela já não é aceitável para Deus. Toda a estrutura e funcionalidade previstas na Bíblia são invalidadas, inclusive a dedicação integral ao ministério pastoral ou missionário. Os filhos de pastores e missionários, possíveis sucessores de seus pais, são um dos grupos mais afetados nesse cenário apocalíptico.

A verdade é que Jesus “... designou alguns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com o fim de preparar os santos para a obra do ministério, para que o corpo de Cristo seja edificado...” Ef 4:11,12. Na missão e ministério determinados por Deus, a liderança é imprescindível, seu trabalho é fundamental, e sua dedicação integral não pode ser desprezada. Livres do mundanismo e valorizando biblicamente a Igreja, acharemos os trabalhadores dignos de seu salário (Lc 10:7) e veremos jovens sendo vocacionados, especialmente aqueles que convivem com o bom exemplo de seus pais.

Vocação verdadeira

José Bernardo

Vocação se tornou um tema ainda mais importante para as novas gerações. Até mesmo a igreja está envolvida e os congressos, conferências, seminários e livros sobre o assunto atestam isso. Vivendo em um mundo de população crescente, em cidades cada vez maiores, com menores barreiras internacionais e com uma demanda materialista extremamente custosa, adolescentes e jovens são pressionados pela competição por melhores carreiras a salários mais altos. Mas, se a aglomeração intensifica o problema, o fator complicador é o individualismo humanista. Essa geração, sobretudo, procura uma carreira para se satisfazer. Necessidades, desejos e projetos pessoais são seus critérios vocacionais básicos.

Mas, se vocação significa ‘chamado’, como alguém poderia descobrir a própria vocação consultando suas necessidades, desejos e projetos? Como a Geração Z poderia finalmente se realizar vocacionalmente fazendo testes psicológicos, visitando universidades, ouvindo palestras ou, simplesmente, consultando tabelas de salários? Se vocação é chamado, é porque alguém chama para alguma coisa. A referência para a vocação é externa, não interna. Ninguém chama a si mesmo. A grande ansiedade que a questão vocacional gera atualmente é consequência da rejeição do referencial externo, do padrão a ser seguido. Enquanto tenta satisfazer a si mesma a Geração Z fica cada vez mais insatisfeita.

No relato de Marcos (Mc 1:35-39) encontramos Jesus reafirmando sua vocação depois do sucesso ministerial em Cafarnaum. Os amigos apontaram um caminho, as necessidades das pessoas confirmaram e o sucesso, certamente, fazia tudo parecer muito convidativo. Essas também são influências nas escolhas vocacionais de adolescentes e jovens hoje. Jesus superou tudo isso. Saiu de casa ainda dentro da noite e foi orar. Durante mais de três horas, provavelmente, ele trocou seus desejos pela vontade de Deus e, quando os seus amigos finalmente o encontraram, Jesus estava seguro de onde devia ir, o que precisava fazer e que resultados importava obter.

Vocação é chamado e quem chama é Deus. Contrariamente ao que os coachs que contaminam a igreja com secularismos, só encontramos nossa vocação quando ouvimos o chamado divino, e Deus não tem chamado ninguém para ser arquiteto, engenheiro ou médico. Jesus sabia disso e disse: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra” Jo 4:34. Quando deixarmos de pensar no que precisamos, desejamos ou planejamos para fazer somente a vontade de Deus e realizar a obra dele, então nossa vocação emergirá facilmente. Vocação não é questão de procura, mas de correta disposição.

Mind the gap

José Bernardo

A África já não precisa de missionários, mas de médicos, enfermeiros e nutricionistas. Ideias como essa são cada vez mais repetidas entre os evangélicos brasileiros e atraem a concordância de muitas pessoas. Com um discurso de que não se pode separar a evangelização da obra social, na prática, faz-se obra social como se fosse evangelização. O pretexto é que nem sempre se pode proclamar o Evangelho, então as boas obras devem tomar o lugar da proclamação, como se tivessem o mesmo efeito, como se fossem o cumprimento da missão. O pensamento consequente é o óbvio questionamento da relevância da pregação.

Uma proposta assim não parte da Palavra de Deus, mas de um pensamento humanista, onde, classicamente, ‘O homem é a medida de todas as coisas...’ (Pitágoras). Esse pensamento sofismático contaminou facilmente a Igreja, fazendo com que suas atividades e até a pregação circulem em torno das necessidades, desejos e projetos humanos. Exemplo desse grave desvio é que nos 44 slides de uma exposição sobre Teologia da Missão Integral, um conhecido militante dessas ideias, lista isoladamente, no cromo 40, apenas catorze versículos de 7 passagens, sem que nenhum deles seja fundamental para suas ideias filosóficas. Teologia assim não se defende biblicamente.

Centralizando a fé prática do cristianismo em sua Palavra, Jesus disse: “E conhecerão a verdade, e a verdade os libertará” Jo 8:32. A comunicação do Evangelho, não somente é a completa missão da Igreja, como também o único meio de o ser humano ser liberto de sua miséria. Desviada dessa missão, a Igreja é incapaz de concluir a obra daquele que nos enviou. Somente quando se concentrar em sua missão bíblica, a igreja fará a vontade de Deus. Quando isso acontecer, ela não se concentrará onde existam necessidades humanas, mas nos espaços onde a verdade libertadora ainda não seja conhecida.

Então, para os crentes que procuram viver a missão bíblica da Igreja, o conceito ‘mind the gap’, concentre-se na lacuna, é básico. Paulo expressa assim esse conceito em seu ministério: “Sempre fiz questão de pregar o evangelho onde Cristo ainda não era conhecido, de forma que não estivesse edificando sobre alicerce de outro” Rm 12:20. Que nossa conduta deva ser coerente com a mensagem que pregamos, isso é inquestionável. As questões a serem resolvidas são essas: O que é conhecer a Cristo? Quem ainda não o conhece? Como podem conhecê-lo? Nisso, não somos testemunhas de nós mesmos, mas de Cristo.

26 de dez. de 2019

A família da fé

José Bernardo

Uma sociedade antropocêntrica e materialista, quase sempre pós e em alguns casos anticristã, vem reformulando o conceito de família e as práticas que dependem dele. Atualmente, diz-se que família é o grupo unido pelo afeto, pessoas que se reconhecem e se apresentam como família, independente dos componentes ou de como o vínculo se formou. Nesse cenário plural, amor, respeito, bom-senso e harmonia, embora sejam conceitos vazios na falta de um padrão definido, são propostos como norteadores da família. Na prática impera o individualismo, o ‘se reconhecer e se apresentar’, autenticado por servidores públicos que tentam se manter em seus cargos.

A pretexto de inclusão dos indivíduos, a escola ensina as crianças a aceitar como família o que quer que se reúna sob o mesmo teto. A infundada ideologia de gênero, contestada pela neurociência, é a base para esse disparate. Infelizmente, contaminada pelo pensamento mundano, a Igreja é pouco capaz de combater esse erro que atenta contra a instituição divina da família. Um exemplo do pluralismo que desabilita a Igreja é separar Deus da sua missão, para permitir dizer que, embora Deus venha em primeiro lugar, a família vem antes da Igreja. Pretendendo a felicidade familiar, a Igreja a impede completamente.

Jesus nem poderia participar de encontros de casais orientados pela psicologia popular. Crentes ‘paz e amor’ não toleram que Jesus tenha dito “Pois quem faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão, minha irmã e minha mãe” Mt 12:50. O fato é que a Palavra de Deus estabelece uma família baseada em Deus e orientada pela missão que ele delega. Se isso for pouco, é preciso ouvir o Senhor dizer: “Quem ama seu pai ou sua mãe (seu filho ou sua filha) mais do que a mim não é digno de mim” Mt 10:37.